23:30
- Quem é? - pergunto para a
porta da frente.
- Sou eu. - responde uma voz
masculina, e estranhamente familiar.
Não acredito nisso. Não posso acreditar que ele realmente veio.
- Não acredito nessas
respostas. Eu quem? - pergunto, agora mais seca.
- Sou eu bonita, me deixa
entrar.
Não acredito nisso. Eu realmente não posso acreditar que ele veio.
Mesmo assim, destranco e abro a porta.
E é ele. O filho de uma mãe
veio mesmo. Não acredito mas ele veio, acreditando ou não. Está a me olhar com
seus olhos verdes, que me espreitam através de seu óculos levemente quadrado
com armação esverdeada. O cabelo castanho claro está bagunçado, como sempre. E
ele sorri, um sorriso jovem e despretensioso.
Um sorriso debochado.
- Meu Deus anjo. Que fazes
aqui a essa hora? - Pergunto.
- Vim te salvar.
- Me salvar? - o que ele quer dizer com me salvar? - E
quem disse que preciso ser salva? - Nessa hora reparo que ele carrega alguns
sacos de papel pardo nas duas mãos. Quatro ao todo. Meu Deus, ele vai aprontar alguma...
- Seus olhos bonita, seus
olhos. - ele fala, com aquele sorriso de deboche jogado diretamente contra o
meu rosto.
- Só acredito que és você por
causa que és a única pessoa no mundo que deve chamar alguém de bonita. Venha,
entre. Está meio bagunçado, mas sabe como é.
Ele sorri e acrescenta:
- Claro que sim. É só não
reparar.
Caminha firme e direto para a
cozinha, afinal, ele já é da casa. Não é? Será que com isso ele tem o direito
de ir entrando assim, tão auto confiante, sem jogar fora o respeito e a classe?
- A propósito. O que são
essas sacolas? - resolvo perguntar.
- Seu aperitivo, jantar, e
café da manhã. - ele responde, ainda sorrindo. - Me diz, bonita - e uma
piscadela - pretendes ficar de roupão a noite toda?
Ai meu Deus. Como que não me lembrei?
- Meu Deus, desculpa. Estava
indo para o banho. - tento me esquivar, mas é muito embaraçoso.
- Tudo bem, melhor assim. Vá
para o banho que vou arrumando tudo aqui. - E no final da frase, o desgraçado
acrescenta mais uma piscadinha.
- Tá bem. Vou tentar não
demorar.
Ouço um resmungo e sei que é
minha deixa para sair.
Meu Deus, ainda não acredito que ele realmente veio. Filho da mãe.
Entro na suíte e vou
diretamente para o chuveiro. Eu estava para tomar um banho demorado, e quer
saber? Vou mesmo! Ninguém mandou esse safado vir aqui na hora do banho. Ele que aguente e espere
também! Abro o chuveiro , ensaboo e massageio cada membro do corpo, tronco,
pescoço, enxáguo e repito todo o procedimento. Quando me sinto mais limpa passo
para o cabelo que está extremamente oleoso. Claro!
Estou voltando de viajem, era para estar como? leve e ondulante? Ha! Essa é
boa! Lavo o cabelo com calma, paciente, imaginando o que o idiota está
fazendo na minha cozinha! Depois de massagear bem a cabeça com o shampoo,
enxaguo e repito a operação. Será que ele
acha que estou enrolando ele? Talvez eu devesse enrolar um pouco menos. Mas
vamos sempre lembrar que a culpa disso é dele. Depois da segunda rodada de
shampoo, passo para o condicionador, que como sempre, é da mesma linha que o
shampoo. Aplico, espero, sinto a água com pressão massagear meus ombros,
levando a ansiosidade embora com ela. Enxáguo e faço tudo novamente.
Assim que saio do banho, uma
pressa descomunal toma posso de mim e quero repor o tempo perdido. Entro no
quarto propriamente dito e procuro uma roupa para vestir. Acabo optando por um
short jeans azul claro e uma camiseta básica branca, bem folgada, afinal, estou em casa e não pretendo sair
daqui de jeito nenhum! Um chinelinho para terminar o look caseiro, nada de
maquiagem, mas não ouso sair sem uma pequena dose de perfume, nada de mais, só
pra dar um cheirinho por mais tempo. Uma cativada.
E então, agora até que me
sinto mais preparada para encarar o que raios esse moleque está pensando que
está preparando na minha cozinha, na minha casa, no meio da noite.
Quando saio do quarto escuto
um grande estouro do lado de fora da casa e tenho certeza que a meteorologista
acertou na previsão de uma grande tormenta sobre a cidade nessa noite, melhor fechar tudo. Mas quando vou para
a janela da sala percebo que ela já está fechada e vejo que estou sendo
observada.
- Desculpa bonita, mas acho
que irá chover litros de água hoje, então tomei a liberdade de fechar as
janelas da casa. Só falta a do seu quarto. - ele pega dois copos de shots em
cima do balcão da cozinha, que aparentemente já estavam completamente
preparados e caminha em minha direção estendendo a mão - Para melhorar o seu
ânimo.
- Meu animo está muito bem,
obrigada! - respondo secamente, não sem um sorriso, mas não deixo de aceitar o
copinho. - o que colocasse aqui dentro? - pergunto.
- Nada de mais. Pode tomar
sem erro que não vais se arrepender! - uma pausa, ele me olha pensativo e
acrescenta - aliás, um brinde! A essa noite! E que ela nunca acabe! - então
entorna o copinho em um grande gole.
E pelo jeito, agora é minha
vez. Viro o copinho em um grande gole, tentando parecer extremamente corajosa,
mas tenho certeza que a minha careta me trai. Deus! Como algo pode ser tão quente, doce e picante ao mesmo tempo?
Delicioso.
Ele ri da minha careta, pega
meu copinho e volta para o interior da cozinha sugerindo como quem não quer
nada:
- Bonita, que tal uma
musiquinha para dar um clima? Ou quem sabe para esquecer um pouco os trovões lá
fora, ein? - aproveita e me manda um sorriso por cima da bancada da cozinha e
como se fosse para acentuar o que ele falou, estoura outro trovão com um som
cortante pela casa.
- Claro que sim - respondo -
alguma preferência?
- Não não, o que escolheres
estará ótimo!
Caminho pela sala arrastando
os chinelos atrás de mim e chego ao aparelho de som. Eu particularmente ainda
prefiro muito mais os CDs. Não é pela qualidade, lógico, mas pelo sentimento em
si, de escolhermos um álbum, um artista, uma época. Começo a procurar na minha
pilha e acho algo que talvez combine. Just Let Them Talk, Hugh Laurie.
A música começa, me viro, e
vejo que ele já está colocando uma tábua de frios em cima do balcão, exatamente
a frente de uma baqueta. Me dirijo até ela, me sento e reparo que ele preparou
alguns queijos e salaminhos em cubinhos, junto com alguns legumes em conserva.
Está perfeitamente arrumado e parece extremamente apetitoso.
Ele me oferece um palitinho,
pega um para ele e ambos começamos a beliscar alguns dos frios. Os queijos são
maravilhosos! Gente! Que delícia!
- Me diz, que queijos são
esses? Estão maravilhosos!
Ele resmunga um pouco, engole
o queijo que estava degustando lentamente e responde.
- Esses são queijos
uruguaios. Trouxe da minha ultima viagem.
- Nossa! Muito saborosos!
Ele sorri, se vira e começa a
mexer com algumas vasilhas e cumbucas que já estão sobre a pia. Me levanto,
pego uma cerveja na geladeira, distribuo em dois copos, coloco um ao lado dele,
sobre a pia e volto com o meu para meu banquinho, extremamente curiosa.
- Me fale mestre, o que estás
pensando que estás preparando? - pergunto de maneira bem humorada.
- Salmão com molho de
maracujá e batatas sauté. Uma saladinha verde para acompanhar. Que tal? - e lá
está o sorriso dele sendo jogado na minha cara de novo.
- Perfeito! Adoro salmão! - e
é verdade.
Ele sorri, se volta novamente
para a sua bancada de trabalhos onde está picando cebolinhas e toma um gole de
cerveja.
- As corridas tem feito bem à
você pelo que me parece - arrisco.
- A sim, com toda a certeza.
Emagreci 15 quilos desde que voltei a correr. Me sinto muito melhor e disposto
hoje em dia.
- Bom, muito bom. Eu tentei
fazer academia semestre passado.
- De novo?
- Sim, de novo. Durou 3
semanas e larguei tudo. Não consigo me forçar a ir malhar.
Então ele da uma risada
gostosa e espontânea.
- Faz muito o seu tipo essa
atitude mesmo. Mas pelo menos tentasse.
- É, tentei.
- De novo
Ele descasca as batatas e
prossegue tranquilo, como se soubesse exatamente o que está fazendo. Mas aposto
que não sabe. Entretanto, tem a mão firme enquanto faz os preparativos.
- Ainda trabalhando com
música? - pergunto, querendo puxar assunto. Afinal, ele está cozinhando para
mim na minha casa.
- Sim sim, não acredito que
vou sair dessa vida sabe?
- Hmmm, por que?
- Por que foi Deus que
escolheu ela pra mim. Não sei como não trabalhava com música antes. É muito eu
isso. Muito minha vocação e muito o que gosto de fazer. Nem sei se posso
considerar um trabalho.
- Aí sim que é legal.
- Sim, o trabalho dignifica o
homem.
- Aé?
- Não sei, mas me falaram
isso e achei que faz sentido.
- Ah, entendi. Ainda falando
com a Clara?
- Não, não sei dela a 10
anos.
- Quer dizer que nunca mais
falasse com ela? Desde o ocorrido?
- Nunca.
- Isso não machuca as vezes?
- Nos primeiros 2 anos
talvez. Mas acostuma, depois supera, sabe.
- Aham.
- Como pretendes seguir
agora? Alias, está tudo bem com você?
- Está sim, quer dizer, já se
foram 2 meses né. Acho que o pior já passou. Mas não sei se quero ficar 10 anos
sem falar com ele.
Ele ri. Suave e espontâneo
ele ri.
- Claro, imagino que não
queira. Eu também não queria.
- Então por que não se
falaram mais?
- Ela falou, hmmm, coisas.
Muitas coisas no calor do momento. E quando fui conversar com ela, muito pouco
tempo depois, algo como um mês, não sei, ela estava namorando o Carlos.
- O Carlos? Filho da Cláudia?
- Isso.
- Mas vocês não eram melhores
amigos?
- Éramos.
- Nossa, que grande bosta.
- Acontece, a vida é assim.
Nem sempre por bem e nem sempre para o bem.
Ele sorri calmamente,
tranquilo, e muda de assunto.
- Então, espero que gostes de
molho branco com alcaparras. Acho que combina muito com salmão.
- Claro - ele não está
abalado, eu acho, só está desviando de assunto - Muito boa escolha.
Assim continuamos conversando
até que o salmão ficou pronto. Arrumei a mesa, ele abriu o vinho e continuamos
conversando sobre tudo e nada durante o jantar. Aliás, o jantar estava
completamente delicioso. E peixe foi a melhor escolha possível, pois comemos
bem e não nos sentimos pesados, enjoados, nada disso.
Quando terminamos o jantar,
ele trouxe um sorvete de passas ao rum, que eu adoro, e que ele sabe que eu
adoro. Comemos e conversamos mais um pouco, até que ele recolheu os pratos da
mesa e os depositou na pia.
- O que faremos agora
sabichão?
- Ver um filme, claro. - ele
responde sorrindo, debochado - Ou tens alguma ideia melhor?
- Não não, filme está ótimo
pra mim. Que filme trouxesses?
- Diário de um jornalista
bêbado. Não sei se é bom, mas que eu queria ver esse filme a um tempo eu
queria, então trouxe.
- Legal! É com quem?
- Nosso amigo Johnny Deep.
- Opa! Então deve ser legal
mesmo.
- Tomara.
Ele vai para o meu quarto,
volta com uma colcha e pega o filme na mochila perto da cozinha.
Sento no sofá e ele senta ao
meu lado, passando o braço por traz da minha cabeça e envolvendo meus ombros.
Não resisto e me encolho para junto dele, repousando minha cabeça em seu ombro.
Seu corpo é quente e me traz segurança. Quando estou profundamente confortável
ele fala:
- É, eu só esqueci de colocar
o filme.
A sacanagem. Assim não dá! Logo agora?
- Assim não dá. Pode deixar
que eu ponho.
Me levanto e vou colocar o
filme. Tinha que ter esquecido? Tinha? Coloco
rapidamente, pego o controle, volto e sento novamente do mesmo jeitinho que eu
estava.
- Aqui ó, pega esse controle
e faça tudo. Pra mim basta ficar aqui com você.
Não sei bem o que foi
engraçado, mas ele ri com gosto, estala um beijo na minha testa e pega o
controle da minha mão.
- Pode deixar bonita. Cuido
disso para você.
Ele faz um carinho gostoso em
meu braço, alcança minha cintura e repousa a mão ali. Como é tranquilo e gostoso isso aqui assim. Podia ficar assim por anos
que não iria me importar.
O filme começa, e tirando um
ou outro estalo que sinto quando ele me beija no alto da cabeça, nada de mais
acontece. A menos que aches que dormir em 45 minutos de filme é algo que deva
ser relatado.
Acordo com seus dedos brincando
com mechas do meu cabelo e seus olhos brilhando abertos no escuro, olhando bem
para meu rosto. Seus dedos acabam passeando pelas curvas e contornos do meu
rosto, suave, com calma, paciência. E então ele sussurra:
- Bom dia bela adormecida.
Como foi a noite?
- Ai, sério que já é de
manhã?
- Não, o filme acabou faz uma
meia hora.
E mesmo não podendo ver,
tenho plena certeza de que o safado está sorrindo! Sorrindo!!
Ele me aperta junto dele, se
prepara e fala:
- Venha, vou te levar até o
seu quarto.
Me pega em seus braços,
levanta com facilidade enquanto eu apenas tento resmungar que não preciso. Mas
na verdade, estou adorando. O jeito delicado de ele me levar, cuidar de mim, me
apreciar, é tudo que eu precisava para essa fase. Acho até que estou começando
a entender o que ele estava dizendo com "salvar você". Se ser salva é
isso, quero ser salva mais vezes. Ah, quero mesmo!
Ele me deita na cama com
ternura, afofa o travesseiro, me cobre e sai. Pera aí, nem um boa noite, um beijo, nada? Nem consigo terminar de
formular todas as críticas na minha cabeça adormecida, e ele aparece com uma
caneca fumegante.
- Trouxe um chá para o sono
da Cinderela. - ele sussurra brincando.
- Muito obrigada, assim está
bem melhor.
Ele senta na beira da cama e
observa enquanto dedico minha atenção ao chá e o absorvo em pequenas goladas. Pelo menos eu tento dedicar minha atenção ao
chá! Ele por outro lado não está tentando nada além de me encabular!
Termino meu chá, ele toma a
caneca das minhas mãos, me ajeita novamente na cama, me da um beijo delicado na
testa, deseja um boa noite bem tranquilo, se vira, sai e fecha a porta.
Por algum motivo eu acabei
achando que iria demorar para pegar no sono, mas não sei o que raios que ele
colocou naquele chá, só sei que está fazendo efeito! Durmo antes mesmo de saber
que dormi, e pela primeira vez em meses, não sonhei com meu término, mas sonhei
com um novo começo.
