quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

in the beginning..

23:30

- Quem é? - pergunto para a porta da frente.
- Sou eu. - responde uma voz masculina, e estranhamente familiar.
Não acredito nisso. Não posso acreditar que ele realmente veio.
- Não acredito nessas respostas. Eu quem? - pergunto, agora mais seca.
- Sou eu bonita, me deixa entrar.
Não acredito nisso. Eu realmente não posso acreditar que ele veio. Mesmo assim, destranco e abro a porta.
E é ele. O filho de uma mãe veio mesmo. Não acredito mas ele veio, acreditando ou não. Está a me olhar com seus olhos verdes, que me espreitam através de seu óculos levemente quadrado com armação esverdeada. O cabelo castanho claro está bagunçado, como sempre. E ele sorri, um sorriso jovem e despretensioso.  Um sorriso debochado.
- Meu Deus anjo. Que fazes aqui a essa hora? - Pergunto.
- Vim te salvar.
- Me salvar? - o que ele quer dizer com me salvar? - E quem disse que preciso ser salva? - Nessa hora reparo que ele carrega alguns sacos de papel pardo nas duas mãos. Quatro ao todo. Meu Deus, ele vai aprontar alguma...
- Seus olhos bonita, seus olhos. - ele fala, com aquele sorriso de deboche jogado diretamente contra o meu rosto.
- Só acredito que és você por causa que és a única pessoa no mundo que deve chamar alguém de bonita. Venha, entre. Está meio bagunçado, mas sabe como é.
Ele sorri e acrescenta:
- Claro que sim. É só não reparar.
Caminha firme e direto para a cozinha, afinal, ele já é da casa. Não é? Será que com isso ele tem o direito de ir entrando assim, tão auto confiante, sem jogar fora o respeito e a classe?
- A propósito. O que são essas sacolas? - resolvo perguntar.
- Seu aperitivo, jantar, e café da manhã. - ele responde, ainda sorrindo. - Me diz, bonita - e uma piscadela - pretendes ficar de roupão a noite toda?
Ai meu Deus. Como que não me lembrei?
- Meu Deus, desculpa. Estava indo para o banho. - tento me esquivar, mas é muito embaraçoso.
- Tudo bem, melhor assim. Vá para o banho que vou arrumando tudo aqui. - E no final da frase, o desgraçado acrescenta mais uma piscadinha.
- Tá bem. Vou tentar não demorar.
Ouço um resmungo e sei que é minha deixa para sair.
Meu Deus, ainda não acredito que ele realmente veio. Filho da mãe.
Entro na suíte e vou diretamente para o chuveiro. Eu estava para tomar um banho demorado, e quer saber? Vou mesmo! Ninguém mandou esse safado vir aqui  na hora do banho. Ele que aguente e espere também! Abro o chuveiro , ensaboo e massageio cada membro do corpo, tronco, pescoço, enxáguo e repito todo o procedimento. Quando me sinto mais limpa passo para o cabelo que está extremamente oleoso. Claro! Estou voltando de viajem, era para estar como? leve e ondulante? Ha! Essa é boa! Lavo o cabelo com calma, paciente, imaginando o que o idiota está fazendo na minha cozinha! Depois de massagear bem a cabeça com o shampoo, enxaguo e repito a operação. Será que ele acha que estou enrolando ele? Talvez eu devesse enrolar um pouco menos. Mas vamos sempre lembrar que a culpa disso é dele. Depois da segunda rodada de shampoo, passo para o condicionador, que como sempre, é da mesma linha que o shampoo. Aplico, espero, sinto a água com pressão massagear meus ombros, levando a ansiosidade embora com ela. Enxáguo e faço tudo novamente.
Assim que saio do banho, uma pressa descomunal toma posso de mim e quero repor o tempo perdido. Entro no quarto propriamente dito e procuro uma roupa para vestir. Acabo optando por um short jeans azul claro e uma camiseta básica branca, bem folgada,  afinal, estou em casa e não pretendo sair daqui de jeito nenhum! Um chinelinho para terminar o look caseiro, nada de maquiagem, mas não ouso sair sem uma pequena dose de perfume, nada de mais, só pra dar um cheirinho por mais tempo. Uma cativada.
E então, agora até que me sinto mais preparada para encarar o que raios esse moleque está pensando que está preparando na minha cozinha, na minha casa, no meio da noite.
Quando saio do quarto escuto um grande estouro do lado de fora da casa e tenho certeza que a meteorologista acertou na previsão de uma grande tormenta sobre a cidade nessa noite, melhor fechar tudo. Mas quando vou para a janela da sala percebo que ela já está fechada e vejo que estou sendo observada.
- Desculpa bonita, mas acho que irá chover litros de água hoje, então tomei a liberdade de fechar as janelas da casa. Só falta a do seu quarto. - ele pega dois copos de shots em cima do balcão da cozinha, que aparentemente já estavam completamente preparados e caminha em minha direção estendendo a mão - Para melhorar o seu ânimo.
- Meu animo está muito bem, obrigada! - respondo secamente, não sem um sorriso, mas não deixo de aceitar o copinho. - o que colocasse aqui dentro? - pergunto.
- Nada de mais. Pode tomar sem erro que não vais se arrepender! - uma pausa, ele me olha pensativo e acrescenta - aliás, um brinde! A essa noite! E que ela nunca acabe! - então entorna o copinho em um grande gole.
E pelo jeito, agora é minha vez. Viro o copinho em um grande gole, tentando parecer extremamente corajosa, mas tenho certeza que a minha careta me trai. Deus! Como algo pode ser tão quente, doce e picante ao mesmo tempo? Delicioso.
Ele ri da minha careta, pega meu copinho e volta para o interior da cozinha sugerindo como quem não quer nada:
- Bonita, que tal uma musiquinha para dar um clima? Ou quem sabe para esquecer um pouco os trovões lá fora, ein? - aproveita e me manda um sorriso por cima da bancada da cozinha e como se fosse para acentuar o que ele falou, estoura outro trovão com um som cortante pela casa.
- Claro que sim - respondo - alguma preferência?
- Não não, o que escolheres estará ótimo!
Caminho pela sala arrastando os chinelos atrás de mim e chego ao aparelho de som. Eu particularmente ainda prefiro muito mais os CDs. Não é pela qualidade, lógico, mas pelo sentimento em si, de escolhermos um álbum, um artista, uma época. Começo a procurar na minha pilha e acho algo que talvez combine. Just Let Them Talk, Hugh Laurie.
A música começa, me viro, e vejo que ele já está colocando uma tábua de frios em cima do balcão, exatamente a frente de uma baqueta. Me dirijo até ela, me sento e reparo que ele preparou alguns queijos e salaminhos em cubinhos, junto com alguns legumes em conserva. Está perfeitamente arrumado e parece extremamente apetitoso.
Ele me oferece um palitinho, pega um para ele e ambos começamos a beliscar alguns dos frios. Os queijos são maravilhosos! Gente! Que delícia!
- Me diz, que queijos são esses? Estão maravilhosos!
Ele resmunga um pouco, engole o queijo que estava degustando lentamente e responde.
- Esses são queijos uruguaios. Trouxe da minha ultima viagem.
- Nossa! Muito saborosos!
Ele sorri, se vira e começa a mexer com algumas vasilhas e cumbucas que já estão sobre a pia. Me levanto, pego uma cerveja na geladeira, distribuo em dois copos, coloco um ao lado dele, sobre a pia e volto com o meu para meu banquinho, extremamente curiosa.
- Me fale mestre, o que estás pensando que estás preparando? - pergunto de maneira bem humorada.
- Salmão com molho de maracujá e batatas sauté. Uma saladinha verde para acompanhar. Que tal? - e lá está o sorriso dele sendo jogado na minha cara de novo.
- Perfeito! Adoro salmão! - e é verdade.
Ele sorri, se volta novamente para a sua bancada de trabalhos onde está picando cebolinhas e toma um gole de cerveja.
- As corridas tem feito bem à você pelo que me parece - arrisco.
- A sim, com toda a certeza. Emagreci 15 quilos desde que voltei a correr. Me sinto muito melhor e disposto hoje em dia.
- Bom, muito bom. Eu tentei fazer academia semestre passado.
- De novo?
- Sim, de novo. Durou 3 semanas e larguei tudo. Não consigo me forçar a ir malhar.
Então ele da uma risada gostosa e espontânea.
- Faz muito o seu tipo essa atitude mesmo. Mas pelo menos tentasse.
- É, tentei.
- De novo
Ele descasca as batatas e prossegue tranquilo, como se soubesse exatamente o que está fazendo. Mas aposto que não sabe. Entretanto, tem a mão firme enquanto faz os preparativos.
- Ainda trabalhando com música? - pergunto, querendo puxar assunto. Afinal, ele está cozinhando para mim na minha casa.
- Sim sim, não acredito que vou sair dessa vida sabe?
- Hmmm, por que?
- Por que foi Deus que escolheu ela pra mim. Não sei como não trabalhava com música antes. É muito eu isso. Muito minha vocação e muito o que gosto de fazer. Nem sei se posso considerar um trabalho.
- Aí sim que é legal.
- Sim, o trabalho dignifica o homem.
- Aé?
- Não sei, mas me falaram isso e achei que faz sentido.
- Ah, entendi. Ainda falando com a Clara?
- Não, não sei dela a 10 anos.
- Quer dizer que nunca mais falasse com ela? Desde o ocorrido?
- Nunca.
- Isso não machuca as vezes?
- Nos primeiros 2 anos talvez. Mas acostuma, depois supera, sabe.
- Aham.
- Como pretendes seguir agora? Alias, está tudo bem com você?
- Está sim, quer dizer, já se foram 2 meses né. Acho que o pior já passou. Mas não sei se quero ficar 10 anos sem falar com ele.
Ele ri. Suave e espontâneo ele ri.
- Claro, imagino que não queira. Eu também não queria.
- Então por que não se falaram mais?
- Ela falou, hmmm, coisas. Muitas coisas no calor do momento. E quando fui conversar com ela, muito pouco tempo depois, algo como um mês, não sei, ela estava namorando o Carlos.
- O Carlos? Filho da Cláudia?
- Isso.
- Mas vocês não eram melhores amigos?
- Éramos.
- Nossa, que grande bosta.
- Acontece, a vida é assim. Nem sempre por bem e nem sempre para o bem.
Ele sorri calmamente, tranquilo, e muda de assunto.
- Então, espero que gostes de molho branco com alcaparras. Acho que combina muito com salmão.
- Claro - ele não está abalado, eu acho, só está desviando de assunto - Muito boa escolha.
Assim continuamos conversando até que o salmão ficou pronto. Arrumei a mesa, ele abriu o vinho e continuamos conversando sobre tudo e nada durante o jantar. Aliás, o jantar estava completamente delicioso. E peixe foi a melhor escolha possível, pois comemos bem e não nos sentimos pesados, enjoados, nada disso.
Quando terminamos o jantar, ele trouxe um sorvete de passas ao rum, que eu adoro, e que ele sabe que eu adoro. Comemos e conversamos mais um pouco, até que ele recolheu os pratos da mesa e os depositou na pia.
- O que faremos agora sabichão?
- Ver um filme, claro. - ele responde sorrindo, debochado - Ou tens alguma ideia melhor?
- Não não, filme está ótimo pra mim. Que filme trouxesses?
- Diário de um jornalista bêbado. Não sei se é bom, mas que eu queria ver esse filme a um tempo eu queria, então trouxe.
- Legal! É com quem?
- Nosso amigo Johnny Deep.
- Opa! Então deve ser legal mesmo.
- Tomara.
Ele vai para o meu quarto, volta com uma colcha e pega o filme na mochila perto da cozinha.
Sento no sofá e ele senta ao meu lado, passando o braço por traz da minha cabeça e envolvendo meus ombros. Não resisto e me encolho para junto dele, repousando minha cabeça em seu ombro. Seu corpo é quente e me traz segurança. Quando estou profundamente confortável ele fala:
- É, eu só esqueci de colocar o filme.
A sacanagem. Assim não dá! Logo agora?
- Assim não dá. Pode deixar que eu ponho.
Me levanto e vou colocar o filme. Tinha que ter esquecido? Tinha? Coloco rapidamente, pego o controle, volto e sento novamente do mesmo jeitinho que eu estava.
- Aqui ó, pega esse controle e faça tudo. Pra mim basta ficar aqui com você.
Não sei bem o que foi engraçado, mas ele ri com gosto, estala um beijo na minha testa e pega o controle da minha mão.
- Pode deixar bonita. Cuido disso para você.
Ele faz um carinho gostoso em meu braço, alcança minha cintura e repousa a mão ali. Como é tranquilo e gostoso isso aqui assim. Podia ficar assim por anos que não iria me importar.
O filme começa, e tirando um ou outro estalo que sinto quando ele me beija no alto da cabeça, nada de mais acontece. A menos que aches que dormir em 45 minutos de filme é algo que deva ser relatado.
Acordo com seus dedos brincando com mechas do meu cabelo e seus olhos brilhando abertos no escuro, olhando bem para meu rosto. Seus dedos acabam passeando pelas curvas e contornos do meu rosto, suave, com calma, paciência. E então ele sussurra:
- Bom dia bela adormecida. Como foi a noite?
- Ai, sério que já é de manhã?
- Não, o filme acabou faz uma meia hora.
E mesmo não podendo ver, tenho plena certeza de que o safado está sorrindo! Sorrindo!!
Ele me aperta junto dele, se prepara e fala:
- Venha, vou te levar até o seu quarto.
Me pega em seus braços, levanta com facilidade enquanto eu apenas tento resmungar que não preciso. Mas na verdade, estou adorando. O jeito delicado de ele me levar, cuidar de mim, me apreciar, é tudo que eu precisava para essa fase. Acho até que estou começando a entender o que ele estava dizendo com "salvar você". Se ser salva é isso, quero ser salva mais vezes.  Ah, quero mesmo!
Ele me deita na cama com ternura, afofa o travesseiro, me cobre e sai. Pera aí, nem um boa noite, um beijo, nada? Nem consigo terminar de formular todas as críticas na minha cabeça adormecida, e ele aparece com uma caneca fumegante.
- Trouxe um chá para o sono da Cinderela. - ele sussurra brincando.
- Muito obrigada, assim está bem melhor.
Ele senta na beira da cama e observa enquanto dedico minha atenção ao chá e o absorvo em pequenas goladas. Pelo menos eu tento dedicar minha atenção ao chá! Ele por outro lado não está tentando nada além de me encabular!
Termino meu chá, ele toma a caneca das minhas mãos, me ajeita novamente na cama, me da um beijo delicado na testa, deseja um boa noite bem tranquilo, se vira, sai e fecha a porta.

Por algum motivo eu acabei achando que iria demorar para pegar no sono, mas não sei o que raios que ele colocou naquele chá, só sei que está fazendo efeito! Durmo antes mesmo de saber que dormi, e pela primeira vez em meses, não sonhei com meu término, mas sonhei com um novo começo.