***
Continuação de: http://diariosdemundosparalelos.blogspot.com.br/2014/03/eu-bem-que-te-avisei.html
***
John. O jovem.
Depois de seguir por mais alguns quilômetros na via de alta, finalmente o jovem conduz o carro até a pista da esquerda, cruzando a via e entrando em um pequeno desvio. Nenhuma indicação se apresenta durante o caminho, ele apenas segue pelo asfalto mal acabado, completamente seguro da direção em que tomou. Depois de seguir por aproximados 10 quilômetros ele finalmente chega a um pequeno povoado, onde o Opala diminui a velocidade mas não o volume do som. O povoado é composto por paralelepípedos desde a sua entrada, passando pelo centro de casas antigas com aparência aconchegante, até seu final. Um posto de gasolina está posicionado no fim dos paralelepípedos, e é para lá que o jovem se dirige.
Após estacionar o carro ao lado da bomba ele o desliga. E desliga o som. O rock para. O silêncio predomina. Durante 10 segundos pelo menos.
Então, resmungos começam a surgir do porta malas do Opala preto, resmungos altos, desesperados.
O jovem desce do carro, caminha sorridente até um senhor de meia idade que sai da pequena conveniência do posto. O senhor e o jovem se encaram durante um tempo, sem mostrar nenhuma reação. Os resmungos continuam vindo da mala do carro.
O senhor lembra um verdadeiro lenhador. Uma camisa xadrez vermelha e preta meio amarrotada, um jeans velho e um boot formam seu visual que combina muito bem com uma barba longa e fechada num rosto sério e vencido pelos anos.
Então o senhor sorri de volta, ignorando todos os resmungos que vem do carro estacionado, abre os braços e diz:
- John.
John da uma risada juvenil para o senhor lenhador e abraça o homem com vontade. Ambos riem abraçados por um tempo até que se afastam, o homem o segura nos ombros dizendo:
- Caramba jovem, já faz um tempo ein?!
John ainda sorrindo responde:
- Olá senhor Martin. Sim, faz um bom tempo que não venho pra cá.
O senhor solta seus ombros e indica duas cadeiras de madeira na frente da conveniência dizendo:
- Vem jovem, vem. Sente-se, vou buscar uma cervejinha para nós dois.
Sua voz é velha e rouca, desgastada pelos anos. Enquanto ele se encaminha para as cadeiras, quatro crianças aparecem correndo pela rua diretamente em sua direção gritando seu nome:
- John.
- John.
- Oi John.
- John.
Sorridente ele se vira, corre na direção da garotada que faz um círculo a sua volta e ele abraça a todas.
- Carla, Vinícios, Ana e Júlio. Meu Deus. Fico alguns poucos meses fora e vocês triplicam de tamanho?
Todos riem, e a mala do carro resmunga agoniada. Então John pergunta:
- Me falem, o que vocês tem aprontado enquanto eu estava fora?
Carla rapidamente aponta para um garoto mau humorado do outro lado da vila sentado em frente a uma das casas e fala:
- O Júlio jogou água no Playstation dele.
Júlio levanta os olhos sorridentes, abre um sorriso banguela, todo confiante, e lança uma piscadela para John.
John responde a piscadela como cúmplice rapidamente antes que o senhor Martin apareça novamente fora da conveniência exclamando com as crianças:
- Ei molecada, vão já brincar! Parem de perturbar nosso querido jovem John.
Todas as crianças resmungam em uníssono, mas concordam, abraçam o jovem e saem em disparada pela rua.
- Essas crianças - começa o senhor - não sei como não se cansam. Estão virando o povoado de cabeça pra baixo. Vem, sente-se.
O jovem caminha em direção ao homem, pega uma das cervejas em sua mão, uma Bud. Ambos abrem na camisa ao mesmo tempo, brindam quando chegam as cadeiras, se sentam e dão uma boa golada. Relaxam, e após um minuto de silêncio e de um carro que resmunga o tempo todo, o senhor aponta para o carro com a cerveja questionando:
- E o que é isso?
- Um Opala.
O jovem lança um sorriso maroto ao senhor.
- Muito lindo por sinal. Andei num desses uma vez, mas não com esse Blower aí. Anda bem?
- Nossa! Nem imaginas o quanto!
- E todos eles vem resmungando?
- A não! isso só o meu.
Ambos trocam um olhar confidente, sorriem, e o senhor pergunta:
- O que estás aprontando meu jovem?
- Estou cumprindo uma promessa.
O senhor, olha para ele intrigado.
- Uma promessa? Que tipo de promessa envolve um Opala que resmunga?
O jovem sorri, mas responde:
- Na verdade, a promessa envolve apenas os resmungos.
O senhor resmunga concordando.
Ficam em silêncio mais um tempo, então o jovem se levanta, da uma última golada na cerveja, poem a garrafa no braço da cadeira, começa a caminhar para o carro e diz:
- Sabes se a minha Ana passou pela vila recentemente?
Ao que o senhor responde:
- Ah! Passou sim. Andou comprando algumas coisas na mercearia.
O jovem pega a mangueira de gasolina da bomba e começa encher o tanque.
- Aposto que ela não comprou cerveja.
O senhor ri.
- Ela nunca compra né?
O jovem sorri.
- Não. Me consegues duas caixas?
O senhor se levanta.
- Uma de Bud e uma de Heineken?
- Uhum.
- Um Sampoerna de cravo e um Camel também?
- Uhum.
- Então o fim de semana promete.
- Uhum.
Ambos se encaram até que o homem entra de novo na conveniência.
John termina de abastecer o carro, coloca a mangueira na bomba e quando se vira o senhor já está voltando com duas sacolas.
- Só para saberes, meu jovem, que estão geladas.
- Maravilha!
O jovem pega as sacolas, abre a porta, coloca tudo no assoalho atras do assento do motorista e se vira de novo para o senhor.
- Obrigado por tudo Martin.
- Que isso.
- Acerto tudo na volta. Pode ser?
O senhor faz um olhar intrigado para responder:
- Deus me livre garoto! Tais maluco? Você nunca vai pagar nada que vier daqui! É tudo por conta da casa.
- Não não Martin. Por favor. Eu insisto.
- Jamais vou receber algo de você. Por favor, fique como gratidão minha.
O jovem assente e entra no carro. Liga o carro, o som, abaixa o vidro e sorrindo diz:
- Obrigado então. Até mais.
O senhor acena com a cabeça para a mala do carro:
- E juízo para você meu jovem.
O carro arranca, sai do posto, desse da estrada de paralelepípedo que agora se torna de barro e segue cada vez mais ao interior de um lugar nenhum, que é para onde o jovem se dirige.
Em pouco tempo a paisagem muda. Tudo o que se vê são colinas, pastos, plantações e animais. Ovelhas, carneiros, bois, vacas, cavalos. Ao longe um armazém vai passando, cercas vivas, cercas mortas, cercados eletrificados. E é nesse ponto que o jovem desliga o ar-condicionado, abaixo os vidros e respira o mais fundo que consegue.
Abaixa uma marcha, pisa fundo, o carro ronca alto com a traseira se soltando no excesso de pressão que o motor exerce sobre os pneus. Cortando as curvas, o carro derrapando levemente enquanto a poeira segue a mancha preta pela estrada e os únicos que assistem são alguns carneiros e bois que mal levantam a cabeça para ver o carro passar. Então em uma curva ele entra forte demais. No desespero de ver que pode ir reto baixa mais uma marcha, pisa fundo, a frente aponta para a parte de dentro curva, ele esterce o volante para o lado oposto, o carro deslizando em um drift sensacional, até que a força da tração não vence o grau da curva o a traseira avança demais para cima da dianteira que segue girando para o lado errado. O carro descreve um 180 que levanta poeira adoidado e por pura sorte o jovem cola o pé no freio no momento exato para que o carro pare a centímetros da cerca de arame farpado. A poeira envolve o carro que agora está posicionado para o lado errado.
O jovem respira fundo, desliga o carro e abaixa o volume do som. Caralho. Suspira aliviado. Meu Deus. Os protestos que vem da mala ficam cada vez mais agoniados. Meu Deus. Que merda. Se isso foi assustador pra mim, o que será que ele está pensando?
John abre a porta do carro, pega duas heineken's atrás do assento e ele tinha razão, estão bem geladas, e caminha para a traseira do carro. Poem as duas cervejas no chão, respira fundo mais uma vez e abre a mala do carro.
Dois olhos aterrorizados e esbugalhados, injetados de ódio fazem a recepção. O menino começa a se debater e a resmungar injurias ininteligíveis através da mordaça enquanto que o jovem ergue um dedo pedindo silêncio. Quando o menino finalmente se acalma o jovem fala:
- Eu vou tirar a sua mordaça. Quero que entendas que se tentares alguma gracinha, eu te arrebento. Estamos no meio de lugar nenhum, cercado apenas por animais. Não há ninguém por quem pedir ajuda por 10 quilômetros em qualquer direção. Se começar a gritar e me torrar o saco, recoloco a mordaça.
O menino pisca os olhos injetados e o jovem prossegue com calma:
- Estamos entendidos?
O menino pisca novamente, tomado de raiva, e acena positivamente com a cabeça.
- Então, Lucas - começa o jovem - sei que consegues se encostar aqui na lateral do porta-malas, então sente pra cá, ta bem?
O menino sem muitas opções, senta no canto aberto da mala e o jovem segura a fita com um dedo.
- Quando eu contar até 3. Oks?
O menino assente.
- Um - e num movimento rápido e repentino arranca a fita toda de uma vez.
O menino grita!
- Caralho seu viado filho da puta! - mas antes que conseguisse pensar em qualquer outra coisa, John lhe acerta um tapa na lateral do rosto. O menino espantado olha com raiva para o jovem impassível que fala com muita calma:
- Nunca, nunca mais fale assim comigo.
O menino permanece quieto.
- Alias, trouxe uma cerveja pra você. Então, se você não quiser fazer mais idiotices, tiro sua algema e te entrego a cerveja. Preciso repetir que não tem sentido tentares alguma coisa?
O menino pisca. Pisca muitas vezes, mas quem fala é o jovem:
- Agora não tens mais fita na boca. Podes responder.
O menino pisca, e abre a boca. Fica assim durante uns 3 segundos e fecha de novo. Depois torna a abrir e pergunta com uma voz fria:
- O que diabos, queres de mim?
O jovem não responde.
- Fala seu viado filho da - mas outro tapa acerta seu rosto em cheio antes mesmo de terminar a frase. Ele solta um arquejo de dor e sua raiva inflama. - Cacete! Qual teu problema?!?
O jovem não responde.
- Seu maluco sem noção, o que queres de mim?
O jovem não responde.
- Me responde, caralho!!
Então o jovem desiste e fala:
- Trouxe uma cerveja pra você. Então, se você não quiser fazer mais idiotices, tiro sua algema e te entrego a cerveja. Preciso repetir que não tem sentido tentares alguma coisa?
O menino incrédulo olha para o jovem como se tivesse olhando para um animal exótico e se rende:
- Ta! Merda! Que seja! - ele se vira ficando de costas pro jovem - Tira logo essas algemas do caralho.
O jovem suspira pensando algo como precisa mesmo falar tudo dessa maneira? mas poem a mão no bolso e tira as chaves da algema. Abre com calma, tira as algemas e se afasta um passo para ver a reação do menino que ainda está preso pelas pernas. O menino se senta novamente virado pra ele e depois de um tempo ergo os braços exasperado:
- E então?
O jovem avaliando rapidamente a situação, se abaixa, pega as duas cervejas e entrega uma para o menino. Eles abrem na camiseta e dão uma boa golada. Já é minha segunda em tão pouco tempo e com pessoas com quem faz tempo que não bebo. Que vida hein. O menino então pergunta com mais calma:
- Não vais me falar mesmo o que está acontecendo?
O jovem olha para ele meio incrédulo e responde:
- Eu já falei o que precisavas saber.
Aí o menino Lucas não suportou mais:
- Escuta aqui!! Seu idiota de merda!! Quem tu pensa que é?!? Que porra achas que estás fazendo?!? - o jovem fecha o rosto e se afasta um passo para o outro lado da mala do carro - Que merda de promessa é essa?!? Prometesse algo pra quem?!? Pra Lisa?? Pra Puta que o...
O jovem abaixa a tampa da mala com força que bate na cabeça do menino Lucas que protesta na hora:
- AI CARALHO! PORRA!
John, o jovem, responde com calma:
- Acho que deu de cerveja por enquanto. Se colaborares e deitares posso fechar mais fácil.
- PORRA!! QUE MERDA CARA!! QUAL TEU PROBLEMA?!?
- Já falei Lucas. Acho que deu de cerveja, se abaixa.
- Não não não!! Não é assim que isso vai ficar.
O jovem ameaça abaixar a tampa mais uma vez e o menino reage:
- Ok Ok! - ele se deita - Satisfeito? Filho da - mas o restante da frase fica absorta na pancada que o jovem da com a tampa ao fechar a mala do carro.
Ainda tenho uma cerveja pra terminar. Ele que termine a dele no escuro.
Então ele termina de beber a cerveja escutando um carro xingar e praguejar sem parar. (seu viado filho da puta do caralho imprestável de merda e blá blá blá).
Termina a cerveja, leva a garrafa pra dentro do carro, coloca no porta-copos, liga o carro, da a volta e segue em direção a um lugar nenhum.
quinta-feira, 8 de maio de 2014
Assinar:
Comentários (Atom)