quinta-feira, 8 de maio de 2014

tenho medo..

***

Continuação de: http://diariosdemundosparalelos.blogspot.com.br/2014/03/eu-bem-que-te-avisei.html

***


   John. O jovem.




   Depois de seguir por mais alguns quilômetros na via de alta, finalmente o jovem conduz o carro até a pista da esquerda, cruzando a via e entrando em um pequeno desvio. Nenhuma indicação se apresenta durante o caminho, ele apenas segue pelo asfalto mal acabado, completamente seguro da direção em que tomou. Depois de seguir por aproximados 10 quilômetros ele finalmente chega a um pequeno povoado, onde o Opala diminui a velocidade mas não o volume do som. O povoado é composto por paralelepípedos desde a sua entrada, passando pelo centro de casas antigas com aparência aconchegante, até seu final. Um posto de gasolina está posicionado no fim dos paralelepípedos, e é para lá que o jovem se dirige.
   Após estacionar o carro ao lado da bomba ele o desliga. E desliga o som. O rock para. O silêncio predomina. Durante 10 segundos pelo menos.
   Então, resmungos começam a surgir do porta malas do Opala preto, resmungos altos, desesperados.
   O jovem desce do carro, caminha sorridente até um senhor de meia idade que sai da pequena conveniência do posto. O senhor e o jovem se encaram durante um tempo, sem mostrar nenhuma reação. Os resmungos continuam vindo da mala do carro.
   O senhor lembra um verdadeiro lenhador. Uma camisa xadrez vermelha e preta meio amarrotada, um jeans velho e um boot formam seu visual que combina muito bem com uma barba longa e fechada num rosto sério e vencido pelos anos.
   Então o senhor sorri de volta, ignorando todos os resmungos que vem do carro estacionado, abre os braços e diz:
   - John.
   John da uma risada juvenil para o senhor lenhador e abraça o homem com vontade. Ambos riem abraçados por um tempo até que se afastam, o homem o segura nos ombros dizendo:
   - Caramba jovem, já faz um tempo ein?!
   John ainda sorrindo responde:
   - Olá senhor Martin. Sim, faz um bom tempo que não venho pra cá.
   O senhor solta seus ombros e indica duas cadeiras de madeira na frente da conveniência dizendo:
   - Vem jovem, vem. Sente-se, vou buscar uma cervejinha para nós dois.
   Sua voz é velha e rouca, desgastada pelos anos. Enquanto ele se encaminha para as cadeiras, quatro crianças aparecem correndo pela rua diretamente em sua direção gritando seu nome:
   - John.
   - John.
   - Oi John.
   - John.
   Sorridente ele se vira, corre na direção da garotada que faz um círculo a sua volta e ele abraça a todas.
   - Carla, Vinícios, Ana e Júlio. Meu Deus. Fico alguns poucos meses fora e vocês triplicam de tamanho?
   Todos riem, e a mala do carro resmunga agoniada. Então John pergunta:
   - Me falem, o que vocês tem aprontado enquanto eu estava fora?
   Carla rapidamente aponta para um garoto mau humorado do outro lado da vila sentado em frente a uma das casas e fala:
   - O Júlio jogou água no Playstation dele.
   Júlio levanta os olhos sorridentes, abre um sorriso banguela, todo confiante, e lança uma piscadela para John.
   John responde a piscadela como cúmplice rapidamente antes que o senhor Martin apareça novamente fora da conveniência exclamando com as crianças:
   - Ei molecada, vão já brincar! Parem de perturbar nosso querido jovem John.
   Todas as crianças resmungam em uníssono, mas concordam, abraçam o jovem e saem em disparada pela rua.
   - Essas crianças - começa o senhor - não sei como não se cansam. Estão virando o povoado de cabeça pra baixo. Vem, sente-se.
   O jovem caminha em direção ao homem, pega uma das cervejas em sua mão, uma Bud. Ambos abrem na camisa ao mesmo tempo, brindam quando chegam as cadeiras, se sentam e dão uma boa golada. Relaxam, e após um minuto de silêncio e de um carro que resmunga o tempo todo, o senhor aponta para o carro com a cerveja questionando:
   - E o que é isso?
   - Um Opala.
   O jovem lança um sorriso maroto ao senhor.
   - Muito lindo por sinal. Andei num desses uma vez, mas não com esse Blower aí. Anda bem?
   - Nossa! Nem imaginas o quanto!
   - E todos eles vem resmungando?
   - A não! isso só o meu.
   Ambos trocam um olhar confidente, sorriem, e o senhor pergunta:
   - O que estás aprontando meu jovem?
   - Estou cumprindo uma promessa.
   O senhor, olha para ele intrigado.
   - Uma promessa? Que tipo de promessa envolve um Opala que resmunga?
   O jovem sorri, mas responde:
   - Na verdade, a promessa envolve apenas os resmungos.
   O senhor resmunga concordando.
   Ficam em silêncio mais um tempo, então o jovem se levanta, da uma última golada na cerveja, poem a garrafa no braço da cadeira, começa a caminhar para o carro e diz:
   - Sabes se a minha Ana passou pela vila recentemente?
   Ao que o senhor responde:
   - Ah! Passou sim. Andou comprando algumas coisas na mercearia.
   O jovem pega a mangueira de gasolina da bomba e começa encher o tanque.
   - Aposto que ela não comprou cerveja.
   O senhor ri.
   - Ela nunca compra né?
   O jovem sorri.
   - Não. Me consegues duas caixas?
   O senhor se levanta.
   - Uma de Bud e uma de Heineken?
   - Uhum.
   - Um Sampoerna de cravo e um Camel também?
   - Uhum.
   - Então o fim de semana promete.
   - Uhum.
   Ambos se encaram até que o homem entra de novo na conveniência.
   John termina de abastecer o carro, coloca a mangueira na bomba e quando se vira o senhor já está voltando com duas sacolas.
   - Só para saberes, meu jovem, que estão geladas.
   - Maravilha!
   O jovem pega as sacolas, abre a porta, coloca tudo no assoalho atras do assento do motorista e se vira de novo para o senhor.
   - Obrigado por tudo Martin.
   - Que isso.
   - Acerto tudo na volta. Pode ser?
   O senhor faz um olhar intrigado para responder:
   - Deus me livre garoto! Tais maluco? Você nunca vai pagar nada que vier daqui! É tudo por conta da casa.
   - Não não Martin. Por favor. Eu insisto.
   - Jamais vou receber algo de você. Por favor, fique como gratidão minha.
   O jovem assente e entra no carro. Liga o carro, o som, abaixa o vidro e sorrindo diz:
   - Obrigado então. Até mais.
   O senhor acena com a cabeça para a mala do carro:
   - E juízo para você meu jovem.
   O carro arranca, sai do posto, desse da estrada de paralelepípedo que agora se torna de barro e segue cada vez mais ao interior de um lugar nenhum, que é para onde o jovem se dirige.
   Em pouco tempo a paisagem muda. Tudo o que se vê são colinas, pastos, plantações e animais. Ovelhas, carneiros, bois, vacas, cavalos. Ao longe um armazém vai passando, cercas vivas, cercas mortas, cercados eletrificados. E é nesse ponto que o jovem desliga o ar-condicionado, abaixo os vidros e respira o mais fundo que consegue.
   Abaixa uma marcha, pisa fundo, o carro ronca alto com a traseira se soltando no excesso de pressão que o motor exerce sobre os pneus. Cortando as curvas, o carro derrapando levemente enquanto a poeira segue a mancha preta pela estrada e os únicos que assistem são alguns carneiros e bois que mal levantam a cabeça para ver o carro passar. Então em uma curva ele entra forte demais. No desespero de ver que pode ir reto baixa mais uma marcha, pisa fundo, a frente aponta para a parte de dentro curva, ele esterce o volante para o lado oposto, o carro deslizando em um drift sensacional, até que a força da tração não vence o grau da curva o a traseira avança demais para cima da dianteira que segue girando para o lado errado. O carro descreve um 180 que levanta poeira adoidado e por pura sorte o jovem cola o pé no freio no momento exato para que o carro pare a centímetros da cerca de arame farpado. A poeira envolve o carro que agora está posicionado para o lado errado.
   O jovem respira fundo, desliga o carro e abaixa o volume do som. Caralho. Suspira aliviado. Meu Deus. Os protestos que vem da mala ficam cada vez mais agoniados. Meu Deus. Que merda. Se isso foi assustador pra mim, o que será que ele está pensando?
   John abre a porta do carro, pega duas heineken's atrás do assento e ele tinha razão, estão bem geladas, e caminha para a traseira do carro. Poem as duas cervejas no chão, respira fundo mais uma vez e abre a mala do carro.
   Dois olhos aterrorizados e esbugalhados, injetados de ódio fazem a recepção. O menino começa a se debater e a resmungar injurias ininteligíveis através da mordaça enquanto que o jovem ergue um dedo pedindo silêncio. Quando o menino finalmente se acalma o jovem fala:
   - Eu vou tirar a sua mordaça. Quero que entendas que se tentares alguma gracinha, eu te arrebento. Estamos no meio de lugar nenhum, cercado apenas por animais. Não há ninguém por quem pedir ajuda por 10 quilômetros em qualquer direção. Se começar a gritar e me torrar o saco, recoloco a mordaça.
   O menino pisca os olhos injetados e o jovem prossegue com calma:
   - Estamos entendidos?
   O menino pisca novamente, tomado de raiva, e acena positivamente com a cabeça.
   - Então, Lucas - começa o jovem - sei que consegues se encostar aqui na lateral do porta-malas, então sente pra cá, ta bem?
   O menino sem muitas opções, senta no canto aberto da mala e o jovem segura a fita com um dedo.
   - Quando eu contar até 3. Oks?
   O menino assente.
   - Um - e num movimento rápido e repentino arranca a fita toda de uma vez.
   O menino grita!
   - Caralho seu viado filho da puta! - mas antes que conseguisse pensar em qualquer outra coisa, John lhe acerta um tapa na lateral do rosto. O menino espantado olha com raiva para o jovem impassível que fala com muita calma:
   - Nunca, nunca mais fale assim comigo.
   O menino permanece quieto.
   - Alias, trouxe uma cerveja pra você. Então, se você não quiser fazer mais idiotices, tiro sua algema e te entrego a cerveja. Preciso repetir que não tem sentido tentares alguma coisa?
   O menino pisca. Pisca muitas vezes, mas quem fala é o jovem:
   - Agora não tens mais fita na boca. Podes responder.
   O menino pisca, e abre a boca. Fica assim durante uns 3 segundos e fecha de novo. Depois torna a abrir e pergunta com uma voz fria:
   - O que diabos, queres de mim?
   O jovem não responde.
   - Fala seu viado filho da - mas outro tapa acerta seu rosto em cheio antes mesmo de terminar a frase. Ele solta um arquejo de dor e sua raiva inflama. - Cacete! Qual teu problema?!?
   O jovem não responde.
   - Seu maluco sem noção, o que queres de mim?
   O jovem não responde.
   - Me responde, caralho!!
   Então o jovem desiste e fala:
   - Trouxe uma cerveja pra você. Então, se você não quiser fazer mais idiotices, tiro sua algema e te entrego a cerveja. Preciso repetir que não tem sentido tentares alguma coisa?
   O menino incrédulo olha para o jovem como se tivesse olhando para um animal exótico e se rende:
   - Ta! Merda! Que seja! - ele se vira ficando de costas pro jovem - Tira logo essas algemas do caralho.
   O jovem suspira pensando algo como precisa mesmo falar tudo dessa maneira? mas poem a mão no bolso e tira as chaves da algema. Abre com calma, tira as algemas e se afasta um passo para ver a reação do menino que ainda está preso pelas pernas. O menino se senta novamente virado pra ele e depois de um tempo ergo os braços exasperado:
   - E então?
   O jovem avaliando rapidamente a situação, se abaixa, pega as duas cervejas e entrega uma para o menino. Eles abrem na camiseta e dão uma boa golada. Já é minha segunda em tão pouco tempo e com pessoas com quem faz tempo que não bebo. Que vida hein. O menino então pergunta com mais calma:
   - Não vais me falar mesmo o que está acontecendo?
   O jovem olha para ele meio incrédulo e responde:
   - Eu já falei o que precisavas saber.
   Aí o menino Lucas não suportou mais:
   - Escuta aqui!! Seu idiota de merda!! Quem tu pensa que é?!? Que porra achas que estás fazendo?!? - o jovem fecha o rosto e se afasta um passo para o outro lado da mala do carro - Que merda de promessa é essa?!? Prometesse algo pra quem?!? Pra Lisa?? Pra Puta que o...
   O jovem abaixa a tampa da mala com força que bate na cabeça do menino Lucas que protesta na hora:
   - AI CARALHO! PORRA!
   John, o jovem, responde com calma:
   - Acho que deu de cerveja por enquanto. Se colaborares e deitares posso fechar mais fácil.
   - PORRA!! QUE MERDA CARA!! QUAL TEU PROBLEMA?!?
   - Já falei Lucas. Acho que deu de cerveja, se abaixa.
   - Não não não!! Não é assim que isso vai ficar.
   O jovem ameaça abaixar a tampa mais uma vez e o menino reage:
   - Ok Ok! - ele se deita - Satisfeito? Filho da - mas o restante da frase fica absorta na pancada que o jovem da com a tampa ao fechar a mala do carro.
   Ainda tenho uma cerveja pra terminar. Ele que termine a dele no escuro.
   Então ele termina de beber a cerveja escutando um carro xingar e praguejar sem parar. (seu viado filho da puta do caralho imprestável de merda e blá blá blá).
   Termina a cerveja, leva a garrafa pra dentro do carro, coloca no porta-copos, liga o carro, da a volta e segue em direção a um lugar nenhum.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

sábado, 19 de abril de 2014

o Príncipe da névoa..

   Por um segundo, antes de fazer o que a mãe pedia, Max espiou de rabo de olho sua irmã Alicia, que tinha ficado em silêncio durante todo o jantar. Seu olhar ausente parecia proclamar aos gritos como estava longe dali, mas, por algum motivo que Max não conseguiu entender, ninguém além dele percebia - ou talvez fizessem de conta que não viam. Por um instante, Alicia devolveu o olhar. Max sorriu para ela.
   - Não quer vir conosco amanhã? - convidou. - Vai gostar de Roland.
   Alicia sorriu debilmente e, sem dizer uma palavra, acenou que sim, enquanto um pontinho de luz se acendia em seus olhos escuros e sem fundo.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

sanguinolência..

eu sei que aqueles que sentem o coração chorando sangue entenderão..




terça-feira, 4 de março de 2014

eu bem que te avisei..

   O Menino.




   O menino acorda tonto, zonzo, com gosto de cobre na boca.
   E adormece de novo.




   A sensação de entrar e sair no mundo instantaneamente lhe da náuseas. Mais uma vez o menino acorda. A cabeça zumbe, uma pressão realmente incômoda aflige a parte de trás da sua cabeça, o que o faz levar a mão à região afetada. Mas o que?!? O toque é úmido e frio. Vermelho. Quando traz a mão para a frente dos olhos novamente só vê a escuridão vermelha. Mas que porra é essa?!? O gosto de cobre na boca é mais intenso.
   E adormece de novo.




   A terceira vez que acorda é com um tapa na cara. Pá! Forte! Quente! Ardido! Os olhos abrem para um flash de luzes brancas, mas a visão está embaçada demais para conseguir focalizar algo. Apenas distingue uma silhueta a sua frente, de onde certamente o tapa veio.
   E adormece de novo.




   No silêncio de um sono sem sonhos ele sente mais um tapa, agora dado com os nós dos dedos, atingindo a maçã do rosto e o nariz. O som estalado do tapa enche todo o recinto. Mais alto que qualquer outro som.
   O menino solta um arquejo.
   Porra! Mas que merda é es..
   Em seguida vem o grito:
   - Acorda desgraçado!
   E outro tapa.
   Pá! Bem no lado esquerdo da face. Um tapa forte com a mão aberta estalando no ouvido, queimando a carne, machucando a cartilagem do nariz.
   O menino solta um longo arquejo e apaga de novo.
   Merda! Que raios é..




   O tempo que pareceu uma eternidade durou na verdade apenas quinze segundos.
   Duas mãos seguram o rosto do menino e o hálito quente do agressor enche o quarto de cheiros enquanto ele diz:
   - Vamos Lucas, acorde! Seu viado de merda! Acorda!
    Acorda?!?
   As mãos soltam o rosto do menino (Lucas) que cai meio sem graça sobre o colarinho da camiseta empapada em suor, fazendo uma mancha nojenta até o meio da barriga. Seus braços estão arranhados, sua calça rasgada, o olho inchado. Quando leva a mão ao rosto, sente o sangue escorrido e ressecado que saiu pelo nariz quebrado.
   Mas que porr..
   E então ele se lembra.




   Lucas, o menino, acordou para uma quarta-feira normal, sem saber que de normal ele só teria o acordar.
   Havia dormido sem camisa, abraçando a moça ao seu lado. Um sono sem sonhos, um sono tranquilo. Um sono digno de quem já estava alto pela cerveja tomada na noite anterior.
   A moça era apenas mais uma que pôde ser usada no caminho, ninguém a mais, ninguém melhor.
   Ninguém.
   Ninguém.
   Ele senta na cama, sem reconhecer o lugar em que está, até que finalmente se lembra que não está em casa. Na noite anterior conheceu a moça, a moça que não é ninguém. Depois de algumas cervejas e músicas agitadas ela havia convidado-o para fazer uma visita ao seu apartamento e como sempre, ele aceitou. Ninguém (a moça) levou o rapaz as nuvens por uma noite, sem saber quem era, sem se importar com o que fosse. Simplesmente aproveitou. (Como se isso realmente fosse possível!).
   Esfrega os olhos sonolentos. Lança um pequeno sorriso para a janela a sua frente e pensa que: mais uma.. mais uma pra conta.. Os rapazes realmente vão adorar isso!
   E uma risadinha. Safada e marota.
   Levanta e vai a caça de suas roupas. Para ele o grande trabalho do dia tende a ser isso, procurar seus pertences que podem ter sido perdidos em uma noite. Aonde raios coloquei a carteira?!? Que merda aconteceu com a minha calça?!? E assim por diante. O quarto é relativamente grande, e espaçoso. As suas costas se estende uma cama box com uma ninguém deitada embaixo dos lençóis. Na frente da cama está uma penteadeira branca, com detalhes antigos, levemente gasta, mas está na cara que foi comprada com esse visual, com esse intuito, e que foi cobrado um preço abusivo nela por conta dos detalhes envelhecidos. Vintage, como se diria. A sua frente se encontra um janelão que da para a sacada, que da para a cidade. Para o centro da cidade. Que da para seja lá que merda que tem lá fora. Cortinas brancas molduram a vidraça impecavelmente limpa. Com a claridade do dia parece apenas uma parede branca, com detalhes brancos, tudo branco. Tudo branco. Ao seu lado esquerdo, do lado da cama, está uma mesinha envelhecida, seguindo o padrão da penteadeira, com um belo abajur em cima, ao lado de uma pequena pilha de três livros que não devem estar sendo lidos. Pelo menos os livros não são brancos.
   Ele se vira, ficando de frente para a cama. Após a cama, do outro lado do quarto está a porta, branca, trabalhada em detalhes antigos, como era de se esperar. Ao lado da porta está um espelho com uma maçaneta, que é a porta para o closet. Desse outro lado da cama também tem uma mesinha, com um vaso de flores. Flores de verdade, ou pelo menos parecem ser.
   Acha a carteira jogada do lado da porta. Essa parte pelo menos estava fácil. Os flash's da noite anterior vão se tornando mais e mais fortes. A cabeça começa a sentir a pressão das cervejadas além da conta. Mas nada que uma ou outra aspirina não resolvam. Assim que eu sair da porra desse apartamento. Cambaleando, sonolento, ele caminha em direção a porta. E, como sempre pode acontecer, consegue chutar o pé da cama com o dedinho do pé.
   - Argh! Filha da. - Segura a língua antes que o xingamento possa alcançar os ouvidos da Srta Ninguém que ainda está completamente apagada na cama ao seu lado.
   Quando pega a carteira, não resiste e da uma olhada no rosto da Srta Ninguém. Caralho mano! Foi com isso aí que sai da festa ontem? Meu Deus. Mas ontem estava tudo bem. Ontem estava tudo ótimo. Ontem a Srta Ninguém era tão boa quanto qualquer outra. Mas hoje... Pensando bem, acho que deixarei os meninos de fora dessa parte...
   Com menos sono ele segue pelo corredor, onde encontra a sua calça ao lado da calça dela, e por pouco não veste a calça errada. Continua seguindo em frente e acha sua camisa jogada por cima do sofá da sala. Ele passa pela casa abotoando a camisa, cansado do incansável branco que está por todos os lados, e sem se importar com os quadros, as almofadas ou qualquer outra coisa que possa ter cor. Apenas segue em direção a porta da frente. Branca, com um olho mágico branco. O gesso que reveste a casa é branco. Tudo branco, tudo perfeitamente branco.
   Ele destranca a porta e a abre. O pequeno corredor exibe apenas mais uma porta além da do apartamento que ele está deixando. O corredor é bege, bem leve, graças a Deus. No meio do corredor está a porta do elevador. Bem decorada. Arranjos cobrem os espaços do pequeno corredor. Um quadro de um gato preenche a parede oposta a porta do elevador. Ele caminha tranquilo, aperta o botão do elevador, olha para cima e espera enquanto o display caminha do térreo, passando pelo primeiro andar, pelo segundo, pelo terceiro, onde porra estou quarto, quinto, sexto, inferno sete e para no oitavo andar. As portas se abrem.
   Entra no elevador. As portas se fecham. Ele aperta o térreo.
   O elevador desce apenas um andar, chega ao sétimo e as portas se abrem. Um jovem de aparência curiosa está parado em frente as portas abertas. Conheço ele. Calça jeans preta, uma camiseta básica branca com uma caveira emoldurada por rosas estampada na frente. A estampa trabalha apenas com cinza e é bastante aberta, mostrando o branco da camiseta. Um vans old school completamente preto está no pé. Um óculos de sol com cara de escritor da década de 90 esconde os olhos, mas deixa aparecer um bigode castanho e um cavanhaque. O cabelo está raspado, pelo menos na número 1. Bem, bem, bem curto. Caramba, eu conheço ele.
   O jovem entra no elevador com uma mão no bolso da calça, a outra segura um livro grosso pendendo ao lado do corpo. Arrastando os pés ele se encaminha para o lado direito para quem está entrando, esquerdo para quem está olhando de dentro pra fora. Lucas deixa aquele lado para o novo integrante sem nenhum problema. Da onde que conheço ele? Diabos. Da onde?
   Mal as portas se fecham e o jovem fala, sem virar a cabeça, apenas, olhando à porta:
   - Bom dia Lucas. - a voz relaxada, sem nenhuma inflexão, sem nenhum interesse.
   Levemente assustado, Lucas, o menino, olha para o novo integrante do elevador e responde:
   - Bom dia cara.
   O jovem vira lentamente, quase arrastando a cabeça na sua direção e pergunta:
   - Lembras de mim?
   Quem é ele, quem é ele, quem é ele diabos? A cabeça não parece estar querendo fazer a sua parte. Talvez se eu evitasse as cervejas por um tempo, esse problema poderia ser resolvido. Mas ele não lembra de jeito nenhum quem é o rapaz.
   - Foi mal brother, mas não, não lembro de você.
   - Meu nome é John. - ele fala sem expressar absolutamente nada.
   John, John. John?! Eu conhecia um John, faz o que, uns dois anos?
   - John amigo da Lisa?
   - Isso. Eu mesmo.
   - Caramba cara! Faz um tempo hein?
   - Faz. Dois anos e três meses se minhas contas estão certas. - ainda sem expressar absolutamente nada.
   - É cara, acho que é por aí mesmo. Me fala, que que fazes por aqui? Tipo, moras por aqui?
   Ele me olha, parado, com o olhar fixo por um tempo. Que foi cara? Parece que estás me avaliando. O jovem, John, fala calmamente:
   - Estou aqui por uma promessa.
   Antes que o menino desse conta do que estava acontecendo, o jovem segura o livro com força e joga o braço para frente descrevendo uma curva acendente antes de acertar em cheio o lado direito do rosto do menino Lucas que é jogado contra a parede do elevador. O estouro que o livro faz ao acertar o rosto do menino enche o elevador, cujo display mostra o número 1. Apenas o estacionamento e estarão na recepção do hotel.
   Porra.
   O menino se desequilibrou, escorregou pela parede até o chão. Sente o sangue na boca onde mordeu a língua com força e cospe uma boa salivada sanguínea para o lado, mas antes de entender qualquer coisa, o jovem John já está sobre ele com seus óculos escuros. Segura a gola da camisa e fala:
   - Uma promessa, seu puto!
   O jovem ergue o braço o da um soco que acerta em cheio o nariz do menino Lucas. O nariz já era, quebrou. E o menino também já era. Apagou. Nocaute.




   John, O Jovem.




   Ai caralho! É a primeira coisa que ele pensa. Ai caralho! Qualé! Era para doer nele, filho da mãe! Segura um mão com a outra sentindo todos os nós dos dedos da mão direita. Ninguém me avisou que dar um soco em alguém doía tanto. Filho da Puta!
   O menino Lucas está estirado na sua frente quando o elevador chega no térreo. As portas se abrem, ele segura o babaca pelas pernas e o arrasta para fora do elevador, a cabeça dando um leve soco quando alcança o chão, e outro quando passa pelo pequeno desnível que separa o elevador do solo seguro da recepção. E o desgraçado tinha que ser pesado também. Puta que o pariu!
   Enquanto eles avançam pelo hall vazio, John não para de resmungar desgraças contra Lucas desacordado. O hall combina com o apartamento da Srta Ninguém, com a exceção de que ao invés de ser branco branco e mais branco, ele é amadeirado, amadeirado e mais amadeirado. Tudo é madeira, tudo é amadeirado. Até o cheiro é amadeirado.
   Quando estão alcançando o primeiro par de portas que são responsáveis pelas entradas e saídas dos prédios, Lucas começa a recobrar sua consciência e resmunga algo como:
   - aaa que porr... mas aaa..
   Mesmo sem conseguir formular nenhuma frase, o jovem John solta as pernas, se vira e acerta um chute com força no estômago do adversário. O som abafado pela camisa e pelas entranhas macias se mistura com o gemido de dor e desconforto do menino, que automaticamente se contorce o cospe sangue no assoalho de madeira do hall de entrada de um prédio antigo e chique. Merda! Pensa John. Eu que não vou limpar essa merda. Vamos logo com isso.
   Ele abre a primeira porta, arrasta o corpo por ela e solta as pernas no chão de novo. O menino começa a se remexer buscando uma reação, mas sua cabeça ainda está sentindo o impacto do soco do elevador, e a ânsia que sobe por seu estômago não ajuda em nada. Antes que algo possa acontecer e mudar o cenário, John pressiona seu pescoço contra o assoalho. A falta de ar é sentida no mesmo instante e o menino começa a se debater, procurando um espaço por onde possa tragar o oxigênio. Segura o braço de John com força, mas não há mais nada que possa ser feito. John havia premeditado esse golpe, sabia exatamente como encaixa-lo. Antes que se desse conta, ele já havia posto o Lucas para dormir de novo.
   John abre a segunda porta, que da para a rua e arrasta o corpo desacordado pelo assoalho até o lado de fora. O dia está nublado, havia chovido a noite toda e a calçada ainda está molhada. Logo depois da porta está a calçada, e estacionado ao lado da calçada está um Opala preto, dos anos 70, com pneus Cooper Cobra. Seis canecos embaixo do capô, com direitos a Blower e tudo. Ele abre a mala, ou porta-malas, chame como quiser, e volta para arrastar o corpo mais um pouco. Dessa vez a cabeça do Lucas bate ao descer o degrau que separa a entrada do apartamento com a calçada, e bate de novo quando desce da calçada para o paralelepípedo, o que faz com que ele consiga um belo corte na parte de traz da cabeça.
   John olha para a mala do carro, pega uma fita adesiva, uma algema, uma corrente e dois cadeados. Olha para o chão e vê que o Lucas está começando a se mexer. Merda! Por que não fica desmaiado? Mas que merda! Rapidamente pega as algemas e prende os braços do menino nas costas, num movimento tão ágil que nem ele imaginava ser capaz. Passa a fita sobre a boca do menino antes mesmo que ele pudesse resmungar qualquer coisa. Quando pega a corrente e passa em volta das pernas os olhos do Lucas abrem e entendem na mesma hora o que está acontecendo. O menino tenta, por puro instinto, dar um chute no seu atacante, mas antes que ele conseguisse descrever o movimento com clareza o jovem já havia se preparado e acertou outro chute na barriga do menino. Porra Lucas! Colabora seu filho da puta! Com a fita na boca o menino não consegue cuspir, então a bile sobe, procura espaço e não há nada que ele possa fazer a não ser engoli-la de volta para o lugar de onde ela veio.
   Com uma pressa divina, o jovem prende as pernas do menino, coloca os dois cadeados, segura-o pelas axilas e com muito esforço coloca o menino que está se contorcendo de dor na mala do carro. Pela graça de Deus, essa belezinha tem uma mala grande. Muito grande. Ele coloca primeiro o tronco e empurra as pernas de qualquer maneira. Antes que o menino pense em alguma reação ele fecha a mala e tranca com a chave do carro. É então que ele escuta um arquejo do outro lado da rua.
   Uma mãe está embasbacada olhando a cena segurando a sua filha pequena contra sua barriga, num esforço inútil de que a menina não veja nada, mas sua cabeça está virada, olhando avidamente a cena que se desenrola a sua frente.
   Porra, que merda! E agora? Sem pensar muito ele se vira para a mãe e fala delicadamente:
   - Desculpe o transtorno madame, mas essa é uma medida preventiva para o bem de sua filha. Passar bem. - Porra. Passar bem? Caminha pela lateral do carro, abre a porta do motorista, senta atras do volante e liga o carro. O ronco do motor cresce e toma conta da rua antes que alguém pudesse ouvir qualquer arquejo vindo da mala do carro.
   Ao olhar para fora do carro, através dos vidros escuros de insulfilm, ele vê que a mãe e filha ainda estão paradas, boquiabertas, olhando o carro parado do outro lado da rua. Mas que porra!! Por que me olham?? Ah! Claro, eu aprisionei um cara na mala do meu carro. Tudo bem tudo bem. Ele abaixa o vidro do carro, tira os óculos revelando bonitos olhos verdes, olha para mulher e diz:
   - No fundo, ainda sou um anjo.
   Recoloca os óculos, fecha o vidro, liga o cd player, e alguns segundos depois os alto-falantes começam a cantar Why'd You Only Call Me When You're High? do Arctic Monkeys. Sob esse som e com o ronco do motor ele poem sua máquina em movimento. Pronto! Graças a Deus! Assim fica bem mais fácil! E desfilando uma mancha negra pela cidade ele parte para o próximo ponto do seu plano.
   Até que não foi tão difícil ele pensa, enquanto o veículo se desloca a 60 km/h. Até que, tirando a dor da mão foi de boa. Maldita promessa de merda. O carro alcança a via de alta, Arctic Monkeys continuam no cd player e ele segue. Eu bem que te avisei Lucas, eu bem que te avisei, mas você não quis me ouvir. Você não deu a mínima. Então ele acelera o carro até os 140 km/h e mantém assim. Só por que preciso cumprir as coisas não preciso deixar de ser legal.




   Lucas.




   Ai! Minha! Cabeça! Filho da puta!
   Amarrado, algemado, preso e com uma fita na boca a única coisa que sai dele é um:
   - Grrrr! Hmmm! Grmm ff Hrmm! - Gutural e cheio de raiva.
   Porra! O que to fazendo aqui? Deitado na mala de um carro desconhecido, os olhos abertos gritando por uma brecha e de repente os falantes começam a tocar um maldito rock. Três vezes maldito rock. Porra! Minha cabeça filho da puta! Dói pra caralho! O carro começa a se locomover, os solavancos fazem com que ele quique e sua cabeça descontrolada bate com o corte no chão da mala do carro. Ele solta um grito preso e desesperado de dor e agonia, mas nada sai além de um som preso e sem brilho. Caralho! Caralho caralho caralho! Que porra! Minha cabeça filho da puta!
   Ele rola para o lado, tentando proteger a cabeça das batidas. Do nada, o mundo dele se resume em um porta-malas, dores, e o gosto de sangue e cobre em sua boca. O que, filho da puta, eu fiz caralho? O que eu fiz? Por que isso meu deus? E com um mundo cheio de escuridão, ele fecha os olhos e tenta lembrar. Tenta se lembrar de tudo. John. Amigo da Lisa. Amigo da Elisabeth. Sim. Lembro de você filho da puta! O que te fiz?
   Dois anos e três meses atrás Lucas ainda namorava Elisabeth, ou Lisa, se você era amigo dela. Tudo ia bem, estavam para fazer um ano de namoro. A Lisa por algum acaso viu esse John um dia que estava passeando no shopping com uma amiga e convidou o três vezes filho da puta para ir no churrasco que iria fazer domingo com os amigos mais chegados. Era pros mais chegados, então por que ele tinha que ir? Mas tudo bem. Ele releva essa parte da história.
   Domingo eles se conheceram. Um domingo ensolarado de outono, clima seco, a lenha pegou fogo rápido na churrasqueira e todos os amigos estavam com cervejas na mão. Algumas Heinekens, algumas Buds e algumas Stellas. Um pouco de tudo. Lisa preparava caipirinhas para as meninas, já que ela era boa nisso e fazia questão de preparar. Já estavam tranquilamente em trinta pessoas quando esse viado filho da puta chegou. Lisa apresentou o menino como "meu namorado Lucas" e apresentou o jovem como "meu grande amigo John. O John foi meu melhor amigo a uns 3 anos atras, e sempre mantivemos um pouco de contato. Até já me apaixonei por ele, sabia?" Viado filho da puta. Agora me agride e acha que está tudo certo. O que te fiz seu retardado de merda pra estar na porra do porta malas dessa porra de carro de merda? Viado filho de uma puta gorda!
   Mais tarde naquele dia, quando todos os convidados haviam se retirado, inclusive o viado filho da puta do John, ela havia começado a falar dele sem parar. Falou pro Lucas como que haviam se conhecido, como sentiu falta dele, e como ele havia avacalhado com a amizade deles quando conquistou-a e começou a namorar outra. Ficaram dois anos basicamente sem se falar, mas quando se viram de novo automaticamente se tornaram melhores amigos. Nunca mais ficaram muito tempo sem se falar. Até que o menino Lucas começou a namora-la. E foi um bom namoro. Ela era muito gata, convenhamos. John seu filho da puta! O que te fiz?
   É óbvio que ele, o menino Lucas, nunca nutriu nada de bom para com esse John. E tirando o churrasco eles se viram apenas mais uma vez, dois meses após o domingo do churrasco, e isso por que a Lisa tinha insistido que a porra do aniversário dela não estaria completo jamais sem a presença do viado filho da puta do John. Mas porra! Minha cabeça! Que que aconteceu nesse aniversário? Ele se esforça pra lembrar. John chegou a determinada altura da festa, comeu alguma coisa, falou algo com a Lisa, sorriu, e foi embora? Porra! Minha cabeça! não me lembro de porra nenhuma!
   Então por que seu viado filho de uma puta? Por que?
   Lisa.
   Tem que ter algo a ver com a Lisa. Ela é o único elo entre nós. Pensa! Pensa!
   Lisa.
   Com muito esforço, cabeça doendo, alterado, dentro da mala de um carro chacoalhando e Porra! Vai mais devagar porra! ele se concentra para tentar achar alguma coisa. Tem que ter alguma coisa. A Lisa foi uma das namoradas dele, ok. Funcionou por um tempo, todos eram felizes, mas não demorou para que ela começasse a encher a porra do saco dele com picuinhas de merda. "Por que tu ainda fala com essas piranhas. Por que tu não me valoriza. Por que eu não sou ninguém pra você. Por que isso, por que aquilo, por que não sei o que." Porra. Supõem-se que namoros sejam isso né. Afinal, ele sempre levou a vida dele como uma curtição, e nunca foi arrebentado e posto em um porta malas por isso.
   O namoro entre eles acabou, como tudo na vida. Lisa ficou muito chateada, muito triste. As amigas falaram que ele era um boiola desprovido de coração e que ela chorou horrores, emagreceu horrores, demorou horrores para se recuperar. Se alguém tinha o direito de me bater, esse alguém é a Lisa, ou alguma outra namorada que tive. Porra! Isso não faz sentido.
   O carro acelera e desacelera de tempos em tempos. Ele já não faz mais a menor ideia de onde está. O som continua alto, rolando solto nos falantes e isso não o ajuda a pensar. O enjoo e a dor no estômago tão pouco colaboram com coisa alguma. Não sabe mais a quanto tempo está preso e andando. O desconforto das algemas junto com o carro em movimento começa a traçar uma agonia sem fim nos braços que já está começando a ficar insuportável.
   Ele falou que era uma promessa. Porra! Porra caralho cacete de agulha! Uma promessa? Uma promessa pra mim? Uma promessa pra quem? Será que prometeu pra Lisa que me bateria? Não, isso não parece fazer muito sentido. Porra! Cacete! Que promessa? Viado filho da puta do caralho!
   O menino mantém sua mente na promessa até perceber que o carro começa a desacelerar. E quando se da conta, o carro já está estacionado e o motor desliga. Graças a Deus!! Vou sair dessa merda de lugar! Alguém vai ter muito o que explicar! Muito!




   A Mãe.




   - Menino insolente. - Ela resmunga consigo mesma. - Vai ver só. Acha que é assim, passar a noite fora de casa e achar que tudo está bem? A mas não vai se escapar dessa assim tão fácil! Ta pensando o que, que isso aqui é um hotel? Que pode entrar e sair a hora que bem entender? Mas isso não vai ficar por aí não! Mas não mesmo!
   Passa outra camisa, dobra, poem na pilha e resmunga:
   - Dai tem que limpar lavar, tirar manchas e entregar prontinho sem mais nem menos? Mas não mesmo! Ele que não apareça na minha frente hoje! Já está passando dos limites!
   Passa outra camiseta, dobra, poem na pilha, resmunga mais alguma coisa, para e escuta.
   Um carro estaciona na rua da frente. Se for esse moleque abusado já vai ouvir umas boas! Solta o ferro com uma boa dose de raiva, limpa o suor da testa no dorso da mão e a mão na lateral da calça.
   - Ele ta achando que eu sou escrava da vida é? Mas não sou mesmo! E ele já vai saber disso!
   Caminha em direção a porta da frente, nem se da ao trabalho de olhar pelo olho mágico, abre a porta e já começa a disparar:
   - Por onde andou moleque? A mãe ta aqui sem dormir, cansada, esperando por um si...
   - Bom dia Maria - solta uma voz feminina.
   Maria para de falar no meio da frase, abre os olhos e da de cara com ninguém mais ninguém menos que sua amiga e ex-vizinha...
   - Carmen! Meu Deus menina, achei que era o Lucas! Venha venha, entre!
   - Noite longa foi?
   - Ah meu Deus Santo e Louvado Deus! Nem imaginas... Acredita que o Lucas ainda não voltou?
   - Ai Senhor Jesus Cristinho! Sério?
   - Sim! Mas é melhor que não volte também! - reclama enquanto as duas caminham para dentro de casa com passos apressados em direção a cozinha. Maria reclamando, Carmen acompanhando com cara estática, mas não sem um pequeno divertimento. Mas assustada também, afinal as noites sempre podem ser perigosas.
   E a Maria prossegue:
   - É muito abuso de um menino só! Quer um café? Ah mas é claro que sim! E ele nem me avisou aonde ia! Vê se pode! Minha nossa Senhora! Deixou o celular em casa esse burro! - Poem o café e a água na cafeteira.
   - Deixou o celular em casa? - Carmen pergunta puxando uma cadeira e sentando no lado da mesa com olhos maiores que duas clicas.
   - Sim! Todos os jovens do mundo não largam essa porcaria e quando precisamos deles com ela esquecem em casa. Como uma mãe pode dormir em paz assim? - Pega duas canecas, abre a geladeira, pega o leite semi-desnatado, coloca tudo na mesa, abre o armário em busca de uma leiteira de vidro, despeja o leite e coloca no microondas.
   - Maria Jesus Antônio José! E não avisou aonde ia?
   - Nem! Um! Piu! Nada! - Pega o açúcar, duas colheres de chá e coloca na mesa.
   - Nossa Senhora! Eu não pregaria o olho a noite se fosse com o meu menino.
   - E achas que eu preguei? Não descansei por um minuto que fosse! E olha que tentei. - O microondas apita, a cafeteira já coou metade da água. Maria pega as canecas e enche três quartos de cada uma com o café recém passado. Coloca as duas canecas na mesa, uma em frente da Carmen e a outra do outro lado da mesa e vai buscar o leite enquanto continua - Meu Senhor Amado! Eu te juro que eu já não sei mais o que fazer. To ficando maluca com isso. E sabes o que a benção do meu marido faz a respeito?
   - O que?
   - Nada! - Serve o leite nas duas canecas e coloca a leiteira na mesa. - Absolutamente nada! - Se serve do açúcar e passa o açucareiro para sua amiga. - Deita na cama, dorme, acorda e vai trabalhar! Parece até que não é nada nessa casa. Mas sei que ele está sentindo tanto quanto eu essas atitudes do Lucas.
   - Ah isso sim pelo menos né.
   - Mas tem me irritado.
   - Imagino. Quantas vezes por semana ele inventa de aprontar dessas?
   - Sexta e sábado já nem conto mais. Ele sai de casa e rezo pra que volte em algum momento e com todos os membros!
   - Meu Senhor Amado!
   - Mas piorou. Agora é quarta e quinta também.
   - Ai Jesus!
   - Veja bem, ontem era terça. Aonde que está? Não! Sei! Ninguém deve saber! Aonde que anda dormindo esse rapaz? Aqui é a casa dele!
   Maria, a mãe, continua desabafando seus problemas até que escuta outro carro estacionando na rua em frente a casa. Ouve um ronco de motor antigo, não desses carros novos, e apesar de velho parece ser esportivo. O carro também está tocando um rock'n'roll que ela não reconhece, já que é uma música do Diabo, Ardiloso.
   O carro desliga. Maria olha para Carmen. Carmen olha para Maria. Maria fala para Carmen:
   - Deve ser ele. Deve ser ele em um carro desses amigos do inferno que ele arranjou nessa vida pecaminosa dele.
   - Isso! Graças a Deus Jesus Maria José!
   - Mas esse amigo também vai ouvir umas boas agora. - elas se levantam da mesa.
   - Isso! Isso mesmo. Vai ouvir!
   - Ninguém vai levar meu filho pras drogas e achar que eu vou ficar impassível! - elas caminham com passos decididos para a frente da casa.
   - Isso!
   - Eles que se cuidem! - Abre a porta da frente. - Escuta aqui moleque! O que pensas que estás fazendo e quem é o traste que está com vo...
   - Madame? - Interrompe uma voz calma na frente da casa.
   O jovem a sua frente tira o óculos escuro que pelo jeito faz questão de usar até em dias nublados e revela lindos olhos verdes.
   Logo após se recuperar do susto, Maria olha fundo nesses olhos e fala irritada:
   - E quem diabos é você?
   O jovem se assusta por um segundo mas responde com muita calma:
   - Desculpe se estou incomodando. Sou John, um amigo do seu filho.
   - Pois bem. - irritada ainda - E aonde está o meu filho?
   - Deve estar na casa de um amigo dele. - O jovem responde com uma certa cara de desconfiança. - Ele só pediu pra que eu viesse aqui buscar uma muda de roupa.
   - Uma... uma muda de roupa?
   - Uhum.
   - Mas o que aconteceu?
   (Bati nele e arrastei pra fora de um prédio o que acabou por sujar a roupa toda)
   - Acabou sujando a que usava ontem caindo em uma poça de lama. - Afinal, a mãe do Lucas não precisa saber que o jovem havia arrastado o filho dela.
   - Jesus! Ta bem. Espere aqui um pouco que já vou buscar.
   - Tudo bem senhora. - O jovem se vira e recoloca o óculos escuro. Fica virado para a rua.
   As duas senhoras, as duas mães caminham pra dentro de casa já aos sussurros:
   - Sabe que apesar da roupa estranha ele me parece um menino bem apessoado. - Começa Carmen.
   - Bem apessoado? Só podes estar de brincadeira comigo. Não visse o alargador na orelha? - As duas entram na lavanderia.
   - Vi. Mas visse a calma e a cortesia que ele nos tratou?
   - Tanto faz! Aquele rock é coisa de satã! - Escolhe uma camiseta do seu filho na pilha de roupas passadas e apressadamente dobra uma calça de sarja sem se importar se está muito amassada por que ele tem que voltar pra essa casa imediatamente!
   - És muito preconceituosa Maria. Ele parece um doce!
   - Só se for comparado com os demônios. - Caminham de volta para a frente da casa. Maria olha bem para o estranho amigo do Lucas parado na frente da casa, pigarreia chamando a atenção, ele se vira para encará-las, da um sorriso e ela fala:
   - Aqui está. Uma camiseta e uma calça. Precisa de mais alguma coisa?
   - Não, obrigado madame. Só isso mesmo. - Ele estende as mãos e pega as duas peças de roupa.
   - Pois então aí está.
   - Uhum.
   - Quando ver o Lucas de novo fale que a mãe dele está muito preocupada e que teremos uma boa conversa quando voltar pra casa.
   Ele sorri de leve mas logo seu sorriso se transforma em uma máscara aflita. De novo controlado demais ele responde:
   - Claro senhora. Agora, se me der licença, eu ainda tenho coisas para resolver hoje.
   - Ta bem, ta bem. Como é o seu nome mesmo jovem?
   - John. Meu nome é John.
   - Ótimo. Não apareça mais aqui. - Aquilo pareceu chocar até mesmo Carmen que intervem:
   - Maria!?!
   - O que é? - Responde seco. - Ele não me parece uma boa companhia pro Lucas!
   Carmen olha para John ainda estático e fala:
   - Deves perdoar ela meu jovem. Está abalada demais com a ausência do filho. Só peça pra ele voltar logo pra casa ta bem?
   Ele então mais tranquilo responde:
   - Claro, está bem.
   Mas as duas já estão se encaminhando para dentro da casa, fecham a porta e trancam. Maria olha pela janela até que o jovem volta para o carro, entra no lado do motorista, da a partida e vai embora. Então resmunga mais uma vez:
   - Isso mesmo! E não volte mais.




   John. E Lisa.




   Ok! Até aqui tudo bem.
   Guiando o carro pela via de rápida de novo. John consegue dirigir o carro sem pensar em absolutamente nada. Está aí uma vantagem de ser homem. Mulheres não conseguem fazer isso e não entendem quando os homens fazem.
   Três horas de viagem. Uma hora em estrada de chão. E daí o tormento começa. Acelera o Opala preto pela estrada aproveitando o vento, o som e a velocidade. Será que é muito desconfortável viajar preso no porta-malas de um carro? Apesar de tudo ele ainda é humano né. Ou depois de um tempo de má conduta ele perde o direito de humanidade?
   De vez em quando ele escuta resmungos e tentativas de gritos vindo da mala do carro. Principalmente nas trocas de música, quando faz mais silêncio. Mas o motor do carro também ajuda a encobrir os gemidos. Graças a Deus que a mãe dele não ouviu nada. Já pensou? Ia ser muito difícil explicar por que estou com o filho dela preso na mala do carro e com a cabeça sangrando. Ai Deus! Maldita promessa.
   Ainda pensando em nada e com surtos de pensamento sobre o Lucas, ele coloca o álbum "The Devil Put Dinosaurs Here" do Alice in Chains, aumenta o volume e continua. Não rodou vinte quilômetros até ter uma boa ideia para aliviar a consciência desse tormento. Reduz a velocidade, para o carro no acostamento, estica a mão para o banco traseiro pegando a muda de roupa que lhe foi confiada pela senhora mãe do Lucas e sai do carro. Caminha até o porta malas, destranca, abre e da de cara com dois olhos esbugalhados, cheios de raiva e terror. Suspira, joga as roupas no porta malas ignorando os respingos e as manchas de sangue no tapete e fala:
   - Tó! Para apoiar a cabeça. Vai ficar mais confortável.
   Fecha o porta malas, ignora os resmungos que vem de lá e volta para o volante do carro. Pronto! Agora podemos ir! E ele segue em alta bons cinquenta quilômetros até que pense em algum coisa de novo. E todo o pensamento foi expressado em duas palavras resmungadas:
   - Que, merda.
   Mais cinquenta quilômetros sem pensar em nada.
   - Que meleca de merda.
   E então, Lisa. Lisa tolinha.
   - Merda.
   Lisa.
   Recentemente ele havia feito uma visita para ela. Lisa. Participou de toda a recuperação. Viu como ela havia estado mal. Viu tudo o que aconteceu. E quando ela precisou, ele esteve lá. Lisa. Por que se envolver com esse cara?
   Se conheceram a muito tempo atrás. Muito tempo mesmo. Quando o jovem era adolescente e a Lisa era apenas uma menina boba. A menina cresceu sim, mas continua boba. Ele se encantou, simplesmente por que ela era de uma transparência sem limites. Acreditava nas coisas boas da vida, acreditava no amor, acreditava nele. Acreditava que tudo o que John fazia era para o bem deles. Mas não foi bem assim que aconteceu. Pela décima terceira vez Lisa, me perdoe.
   Exitem algumas coisas que as pessoas custam a perdoar. Na verdade, existem pessoas que custam a se perdoar por algumas coisas. E John jamais se perdoou pelo que fez. Lisa superou. Lisa seguiu em frente. Mas John não. O John não pode. É como se ele tentasse fazer justiça com as próprias mãos. Como se aprisionasse alguém no porta malas de um carro. É um ato de masoquismo, ele sabe, mas é inevitável também. Ele tem que mante-la viva de alguma forma dentro dele. Não terá coragem de quase se envolver de novo e precisa saber a todo momento que se for pra ser, vai ter que ser pra valer, do começo ao fim, sem um pingo de dúvida. Sem um pingo de acho que pode ser que de certo com ela. Ele sabe que só se envolverá se for pra ser pra sempre. E grande parte dessa raiva incontida está nas palavras de Lisa, dizendo pra ele numa noite em que ele foi salvá-la da depressão:
   - Sabe John.
   - Hmmm.
   - Não acredito mais que as pessoas podem ficar juntas no final.
   Ela estava encostada em seu peito, vendo um filme, a meia luz, na sala do seu apartamento, um pote de sorvete na mão, um copo de coca no encosto do sofá e me solta uma dessas. Não acredito mais que as pessoas podem ficar juntas no final. Não acredito mais que... Ele olha para ela resmungando um:
   - Hmmm. - Ela não se mexe, não se vira, não faz nada. John olha para a televisão novamente e finge que não está escorrendo uma lágrima em seu rosto, descendo, rolando, queimando, por que para ele, a culpa sempre foi e sempre será dele. Afinal, foi ele quem teve a infelicidade de quebrar com o primeiro amor da vida dela. Que era ele.
   Na época eram bem mais novos, ele se lembra. Caramba, ela era apenas uma criança. Tinha o que, 15 anos? Mas era tão linda, e tão pura. Prometi fugir com ela. E uma risada sombria toma conta do seu rosto. 15 anos, e eu deveria ter escolhido ela. Deveria sim. Mas eu também era um menino tolo, não pensava muito pra frente. Não pensava na real. Não pensava em nada. Bem tolo. Sua cabeça não quis se apaixonar por uma criança, por mais delicada e preciosa que fosse.
   Além disso, estava querendo preencher um vazio em seu coração. Ela não foi seu primeiro amor, ele que era o primeiro amor dela. E todos sabem que primeiro amor é algo que vai pra vida toda, a menos que encontres um maior e melhor. Mas nos dedicamos tanto a eles, aos nossos primeiros amores, e com John não foi diferente. Lisa era uma esperança. A esperança no mundo. Esperança de ter um amor maior, mais bacana, melhor. Mas ela era só uma criança meu Deus. Por mais que ela quisesse, como que eu poderia tira-la de sua vida aos 15 anos? As coisas estavam se encaminhando. Eu tive que tomar uma decisão. Pela décima quarta vez Lisa. Me perdoe.
   O que o jovem e tolo fez foi namorar outra pessoa, na tentativa de encobrir ambos os amores que não pode ter. Não deu certo de qualquer forma, e o problema real para a continuação da vida dele nunca foi o término do seu namoro. O problema foi ter te magoado Lisa. Esse sempre foi meu problema desde que deixei você de lado. O problema sempre foi sua idade. Quando tomou a decisão, a tanto tempo atrás, parecem que foram à 10 anos, mas é tão mais recente que isso, ele não havia dado nenhuma explicação, nenhuma justificativa, simplesmente abandonou Lisa com seu coração em frangalhos e tentou seguir a sua vida.
   Demorou dois anos para que se vissem de novo. Isso desde o abandono. Dois anos é bastante tempo. Dois anos pode mudar muita coisa. Não que ele não havia pensado nela antes, ou sabe, hoje em dia temos redes sociais, as pessoas podem se ver, se vigiar, se monitorar por lá. Como que falam mesmo? Aé! Eu stalkeei. Outra risada sombria, uma risada sem humor. Mas dois anos depois ele a vê caminhando com uma amiga no shopping. Ela o vê, seus olhares se cruzam, e tudo para. Bem cena de filme, mas eu podia jurar que todas as luzes se apagaram naquele shopping e que um canhão de luz foi direcionado diretamente para ela. Naquele pequeno segundo exponencial da minha vida, ela era a pessoa mais linda que eu já vi! A menina havia crescido. Que burro né? Se eu tivesse enrolado por um tempo poderia ser eu andando do lado dessa maravilha. E assim como o momento veio, ele passou. As luzes se acenderam, as pessoas ao seu lado voltaram a caminhar em velocidade normal e ela sorri. Ela sorri. As luzes se apagam, as pessoas diminuem a marcha, a imagem congela e para por outro segundo exponencial de sua vida. Então as luzes se acendem, sua amiga repara que ela está olhando para o jovem a frente e que não está nem aí pro que é que ela pode estar fofocando. Lisa amplia o sorriso fácil e caminha em sua direção. John, estático, sente seu coração acelerando, as têmporas sendo arrancada pela pressão sanguínea em sua cabeça, as borboletas caçando na sua flora intestinal e por mais que isso não soe bonito, dizer apenas que elas estão voando no estomago não chega nem perto da realidade.
   Sorrindo muito, Lisa caminha meio trotando em sua direção exclamando um:
   - John!
   Ele ainda estático, sem reação alguma enquanto Lisa se aproxima:
   - John!
   Finalmente o bloqueio mental se desfaz e ele fala baixinho:
   - Lisa?
   Animada pelo reconhecimento ela se adianta e se lança num abraço apertado em volta de seu pescoço:
   - John!
   O qual responde:
   - Lisa. Lisa! - Agora sorrindo muito ele segura seus ombros e a afasta delicadamente para poder olhar em seus olhos - Lisa, é... é você mesmo?
   - Claro que sim seu bobo! - ela responde rindo.
   - Meu Deus! Como crescesse! - ele responde rindo.
   Ficam assim parados por um bom tempo, se olhando, imaginando, fazendo qualquer coisa em suas cabeças até ouvirem um pigarro. Juntos eles olham para o lado e vêem a amiga da Lisa parado ao lado deles. Rapidamente Lisa retoma sua postura enquanto John sente pelo afastar dela e fala para ele:
   - Opa, desculpa. John, essa é minha amiga Patrícia. Paty, esse é John!
   John, sabendo que ela não voltará para seus braços tão cedo e sem deixar de reparar na aliança de prata que ela usa na mão direita, se recompõem para dizer:
   - É um prazer Patrícia - E estende a mão.
   Patrícia toma sua mão sem hesitar, estufa o peito para dizer sorridente um:
   - O prazer é meu.
   Lisa um tanto enciumada pelo toque se interpõem:
   - Então... - Ele a olha, com seus lindos olhos verdes, e ela não pode deixar de se felicitar por ganhar a atenção dele de maneira tão fácil.
   - Então... ?!? - Ele pergunta.
   - Estamos um pouco apressadas hoje, tendo que resolver alguns problemas, mas, no fim de semana vai ter um churrasco na casa do meu namorado - Ela hesita por um breve momento ao perceber o pequeno choque que passa pelo rosto dele - e és mais do que convidado para se juntar a nós. Irão alguns amigos, pessoas legais, vai ter música, vai ser legal.
   - Aé?
   - Uhum!
   - E precisa levar alguma coisa?
   - Não não, só ir mesmo.
   Ele sorri. Aí está uma reviravolta que qualquer um pode gostar em sua vida. Quando uma pessoa por quem tens mais que um carinho especial, e que em um surto de burrice jogasse tudo fora, fala para você ir vê-la no fim de semana. Isso sim é ótimo! Todas as esperanças no mundo se reacendem assim.
   Feliz com a ideia e já se acostumando com a aliança no dedo alheio, afinal fui eu quem acabei com as chances das coisas darem certo, não foi?, ele se lembra de um pequeno detalhe:
   - Ah! Só uma coisa. Ainda tens facebook? Por que nem sonho quem é seu namorado ou aonde ele mora...
   - Mas claro claro, te adiciono e te mando o endereço.
   Ótimo! ele pensa.
   - Ótimo! - Ele fala
   - Ótimo! - Ela responde.
   Eles sorriem um para o outro e são interrompidos por uma Patrícia que não pode deixar de notar na desenvoltura com que tudo aconteceu:
   - Bem, legal. Mas precisamos ir Lisa.
   Lisa um pouco encabulada pela reação da amiga se apressa a dizer:
   - Sim sim, bom... até domingo então?
   Ao qual John responde:
   - Claro. Até domingo. - e sorri com muito gosto, prazer e satisfação.
   As meninas passam por ele mas não dão mais do que quatro passos quando escutam:
   - Lisa! - John as chama.
   Elas param, se viram e ouvem um John radiante dizer:
   - Muito bom vê-la de novo.
   Lisa enrubesce e John gosta de vê-la ganhando cor. Ela então responde:
   - Digo o mesmo. Até mais.
   John começa a dizer um:
   - Até... - Mas as meninas já se viraram de novo e dessa vez partem de vez.
   Lisa.
   O Opala preto continua seguindo por mais alguns quilômetros. E sua cabeça volta a não pensar em nada, nem no menino que já é um homem feito jogado na mala do carro, nem em Lisa, nem na estrada. Apenas segue. Apenas deixa a música encher a sua cabeça e segue a 140 km/h pela via de rápida em direção ao seu destino.
   E ao destino de seu passageiro.




   John. O Jovem.










#####
Comentários, dicas, sugestões, aqui em baixo por favor.
Não esquece de compartilhar com os amigos.
#####

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

me irrita!

   Ai Deus! Que horas são pra ter essa barulheira toda?
   O despertador marca 2:43. Duas e quarenta e três. Duas. E. Quarenta. E. Três. Por que raios está tocando esse rock as 2:43 da manhã no estúdio ao meu lado? Duas e quarenta e quatro. Vá se ferrar John!
   Levanto, ponho o pé no piso e estremeço com o gelo que encontro nele. Pantufas! Pantufas Inferno! Cadê a droga das pantufas?! Duas e quarenta e cinco. Duas. E. Quarenta. E. Cinco! Merda!
   Acabo achando as pantufas do lado oposto ao bidê, o que completa o visual meio sem sentido de estar apenas de calcinha e camiseta preta do Ramones. Ele adora essa camiseta. E pantufas! Mas pelo menos meu pé não gela mais. E esse rock? Qual o sentido? Droga John! A essa merda de hora?
   O estúdio é tudo que importa para ele. Eu sei. Ele é artista e tal. É o lugar onde ele é ele. Começou como uma brincadeira, mas logo eu já tinha entendido que só eu encarava dessa forma. Para ele é um refúgio, um quarto sagrado. Já achei ele bêbado e pelado jogando tinta nas paredes aleatoriamente lá dentro. Naquele dia foi a primeira e a última vez que eu me questionei por que que estava com ele. Por que? Por que ele é um artista! Adoro isso nele. Ele não é imprevisível, só tens que aprender a compreende-lo. É um anjinho vestido de demônio no fim das contas.
   Abro a porta e me deparo com o que eu menos esperava. Esperava umas cadeiras reviradas, amplificadores ligados, ou mixagens em andamento, ou pinturas novas nas paredes. Quem sabe achar ele bêbado? Esse rock todo tem que ter um motivo, sei que ele gosta, mas ele costuma manter isso no fone e não no estéreo. Para você, deve aparentar que ele é como todo artista, drogado e bêbado. Mas, devo adverti-lo de que isso é mentira. Ele demora 3 anos para acabar com uma garrafa de vodka, isso que normalmente metade acaba indo pelo ralo, ou pra algum parceiro, "caramadinhas" como ele mesmo chama. Ele é muito controlado para um artista. Talvez por isso esteja indo tão longe. Talvez por isso esteja vivo.
   Quando abro a porta, encontro o quarto "estúdio", talvez devesse se chamar ateliê, refrescado pelo ar-condicionado em uma temperatura muito agradável, tudo desligado com exceção do estéreo e do notebook a frente dele. O quarto-estúdio-ateliê tem uma janela na parede oposta a porta, onde ele resolveu colocar sua mesa de idéias, que não difere em nada de uma escrivaninha normal. A persiana sempre aberta para poder olhar a vista da cidade do outro lado do vidro. Sua mesa de ideias está atulhada com folhas arrancadas de um caderno de desenho, que é onde ele costuma escrever suas ideias, suas inspirações. Diz ele que as linhas atrapalham o raciocínio. E eu acredito. As guitarras ficam enfileiradas na parede a direta. Uma telecaster bege que já foi branca chamada Elisabeth começa a fila, ele a chama de Lisa. Em seguida temos uma Firebird azul que se chama Isabella. Ele a chama de Bella. Terminamos com uma Manhattan amarela chamada Sophia. Só Sophia. Na parede oposta temos amplificadores. Um AC 30 dos anos 80, um '59 Bassman e um Blues Junior que ele tem mais do que um carinho especial. Um cavalete de pintura está posicionado ao lado dos amps com muitos rabiscos. Do teto pendem aproximadas 50 lâmpadas, mas hoje ele decidiu acender apenas a luminária central, uma extremamente futurista, que contrasta com tudo nesse quarto-estúdio-ateliê. Quadros e mais quadros vestem as paredes, com exceção da parede esquerda, a dos amps, que é revestida com chapas de espelhos longos na horizontal, mas nenhum tem mais do que 15 centímetros de altura e são separados por precisos 5 centímetros.
   É nesse lugar que eu entro, assustada ao ver o quantidade de escritos rabiscos e desenhos abstratos que preenchem sua mesa. O estéreo continua tocando alto, portanto ele não me ouve entrar, não se vira, não se mexe. Está recostado em sua poltrona de escrita com uma garrafa de água na mão. Água. Rock e água. Só na cabeça dele mesmo. A música, identifico logo, é de uma banda chamada Interpol. Reconheço por que gosto.
   Avanço lentamente, tentando ver o que mais pode estar fora do lugar além da garrafa de água que não combina com nada aqui. Seu braço todo colorido pelas tatuagens erguem a garrafa de água, que ele usa para coçar a lateral da cabeça, do lado direito, o único com um alargador. As tatuagens são uma mistura de flocos de neve em tons azulados que terminam com uma rosa presa sobre sua mão. Cada floco parece em movimento na pele dele, e ganham vida quando ele volta escorrendo de uma corrida. Mas hoje estão estáticos.
   Quando chego próximo do meu amado, meu artista, vejo que apesar de ele ter rabiscado muito, muito mesmo, em cada folha que poderia estar a sua frente, a tela do notebook exibe uma página em branco. Quer dizer, estaria completamente em branco se não fosse por uma frase escrita em letras pequenas bem no centro de uma página completamente branca. Tudo que se lê na frase é:









"sua aula me irrita"










   Abraço seus ombros e ele estremece sob meu toque. Depois do leve susto e do pequeno arquejo ele se vira para mim e vejo pelos seus olhos e pelo rosto inchado que ele andou chorando. Atônita por conta do rock alto no estéreo e do meu amado chorando sozinho no quarto-estúdio-ateliê que fica ao lado do quarto em que dormimos nesses belos 7 anos de casados, e sem aguentar mais isso, começo a chorar de levinho e pergunto:
   - Querido, está tudo bem?
   Ele, como sempre todo doce, me puxa delicadamente para o seu colo enquanto empurra levemente a poltrona para traz e para o lado, abrindo um espaço por onde eu possa entrar e me refugiar em seu colo, jogando as pernas por cima dos apoios da poltrona e encostando minha cabeça em seu peito.
   No mesmo movimento fluído ele alcança o controle do estéreo e abaixa o volume até que ele fique apenas como uma música leve de fundo. Olha para mim, para o fundo dos meus olhos, um olhar tão fundo que não sei como alguém pode ser capaz de trazer um olhar tão fundo assim, tão íntimo. Juro que ele consegue ler minha alma com esse olhar. Juro! Ainda me olhando ele responde:
   - Tudo lindo, bonita. Agora que estás aqui está tudo lindo.
   - O que pensas que estás fazendo acordado agora, tarde assim, com esse rock rolando solto no ouvido?
   - Nada de mais meu bem.
   - Como nada demais? Me preocupo com você, sabes disso. És meu bem querer, nada menos que isso.
   - Eu sei docinho, eu sei. Mas não é nada mesmo.
   Quero insistir um pouco mais, pressionar um pouco mais, mas sei que isso só faria com que ele ficasse desconfortável na minha presença, então recuo um pouco e pergunto com calma:
   - Queres que eu saia? Posso sair, só queria que abaixasses um pouco o volume que estou acordando direto.
   Ele olha surpreso pra mim, como se eu estivesse sugerindo algo impossível. Ah não moço, nem vem. Sabes muito bem que estava bem alto essa droga de volume! Mantendo o olhar em mim ele responde:
   - Mas, mas, mas... mas já? Acabasse de chegar. Fica um pouco.
   Pera. ficar?!? Espera aí, ficar? Ele está me chamando pra ficar com ele no quarto-estúdio-ateliê onde nem mesmo seus "caramadinhas" ficam enquanto ele está trabalhando e escrevendo suas ideias? Eu?
   - Eu? er, quero dizer, queres mesmo que eu fique?
   E pra surpreender de vez ele responde:
   - Claro amor! És tudo pra mim. Fique aqui, te mostro o que tenho feito.
   Me mostrar? Me mostrar o que tens feito?
   - Me mostrar? Me mostrar o que tens feito? É sério?
   Ele me olha intrigado, como se eu não soubesse bem o que estava fazendo, como se eu estivesse dormindo, como se eu fosse uma criança. E com carinho responde:
   - Claro linda, claro. Fique aqui comigo.
   - Tem certeza? Não vou atrapalhar? - tem certeza mesmo que não vou atrapalhar? Olha, não é muito normal de você isso. Eu? Eu?
   - Claro que não! Como minha linda esposa poderia me atrapalhar? Só me inspiras mais. Ué!
   Ai meu Deus! Ai meu Deus! Ai! Meu! Deus! E agora? As vezes eu esqueço como ele gosta de ser carinhoso e amoroso. Ai que boba que sou!
   - Ta bom, só vou colocar um shorts.
   - Não não, não precisa! É rapidinho e já vamos dormir meu bem.
   - Ai, ta bem então. Me mostra, o que estás aprontando por aqui? Pelo que vejo só parasse para me colocar pra dormir né.
   Ele ri com gosto, com doçura e diz:
   - Mais ou menos isso. Mais ou menos isso.
   Mais cedo naquele dia nós havíamos jantado, ele preparou o famoso salmão ao molho de maracujá que me conquistou quando ele veio me salvar. Ele gosta de cozinhar. Pelo menos três vezes por semana ele é o responsável pelo jantar. E o desgraçado é bom nisso ainda por cima! Me encanta toda vez! Depois do jantar eu fiquei com a louça e ele foi pro estúdio. Só saiu de lá perto das onze horas, quando eu já estava deitada mas sem conseguir adormecer. Então ele entrou no quarto com seu shorts que todos usam para jogar bola mas que ele usa em casa, por ser mais confortável e não sei o que, uma camiseta básica, deita do lado dele da cama, se aninha em mim que estava virada para o lado oposto do lado da cama. Sinto seu cavanhaque arranhando docilmente meu ombro, os estalinhos que reproduzem os beijos que ele me dá no pescoço, enquanto ele acaricia minha cintura e me puxa bela barriga para mais perto dele. E isso sim é o céu na terra! Posso ficar assim pra sempre! Para todo o sempre! Quero olhar pra ele, beija-lo, mas ele sussurra ao meu ouvido:
   - Relaxa amor, precisas descansar. Deixa que eu te ponho pra dormir hoje.
   Tão doce, tão sedutor. Como recusar? Reclamar? 
   Ele começa a por meu cabelo delicadamente atrás da orelha, do jeitinho que ele gosta. Se aproxima e já começo a me arrepiar antes de senti-lo. Ai Deus! Agora não agora não agora não por favor! Mas é tarde. Senti sua respiração subindo provocativamente pelo pescoço e fazendo cócegas atrás da orelha. Começo a rir e a me contorcer como ele sabia que eu iria fazer. Então ele para e beija o contorno da orelha, meu pescoço, se estica e estala um beijo na minha bochecha, até que eu fique relaxada novamente. Então começam os carinhos e massagens nas costas. Sério que isso é pra fazer com que eu durma? Por que é tão bom que dormir é a última coisa que vou fazer! Mas inacreditavelmente vou relaxando mais e mais. E sentir o corpo dele, esse calor, essa doçura tão próxima de mim, me faz querer mais e menos ao mesmo tempo. Delicadamente ele massageia meus cabelos e o couro cabeludo por trás deles. E quando vejo a única coisa que eu sei é do rock tocando alto no quarto ao lado e minha batalha de permanecer na cama.
   Agora, aqui no estúdio, só nós dois, ele puxa uma folha debaixo de uma montanha de papéis que pra mim não significam nada e me mostra. Seguro em minhas mãos e dou de cara com o que claramente é apenas o cabelo de alguém desenhado no papel. Muito bem desenhado. Tão bem que reconheço no mesmo momento o que é:
   - Meu Deus! - Meus Deus! - Isso é - Isso é - é - é - é o que.. - o que? não pode ser.. mas - isso parece.. - Não pode ser, meu Deus!
   - É o penteado que usasses na primeira vez que nos vimos.
   - Mas - Mas - meu Deus amor - Mas caramba filho da mãe! Está igual. Liso, jogadinho pelos ombros que não estão aqui, com uma mecha caindo pelo rosto que não está aqui - está, lindo, perfeito.
   Enquanto continuo vislumbrando-me apenas nessa cabelo retratado com tanto, tanto, tanto movimento, ele pega outra página perdida pela mesa e entrega nas minhas mãos.
   - E o que teremos - Cacete! O que é isso agora? - O que temos aqui?
   É uma página com um desenho que mostra um rapaz mau desenhado sendo envolto e sufocado por palavras que sobem e atingem em espiral, que o envolvem, o afogam e o asfixiam. Palavras coloridas entre tons de roxo e azul, um azul celeste. Pintado com tinta a base de óleo, percebesse, pelas manchas propositais. Sem entender pergunto de novo:
   - O que é isso? Que que quer dizer?
   - É o efeito que seu perfume teve sobre mim.
   - Mas, ele está te sufocando, maltratando.
   - E foi mais ou menos isso, tirando que eu gostei demais. Ele me alucinou é verdade.
   - Entendo. - Entendo.
   Com as duas folhas em minhas mãos e ainda absorta, embasbacada, e tão entretida com as representações dele, nem percebo que ele tem outra folha em mãos, que ele me entrega assim que me recomponho um tanto.
   É uma lista, percebo logo. Bandas. Leio em voz alta:
   - Los Hermanos, Death Cab For Cutie, The Beatles, The Strokes, Interpol, Silva, Moptop, Modest Mouse.. - e paro. Paro por que a lista é imensa. Tem de tudo. - O que é isso meu bem?
   - As bandas que me lembram de você.
   Meu Deus. Estão todas aqui. Ouvíamos elas em viagens, dias, almoços, encontros, mandávamos um pro outro. Estavam em todos os lugares. E estão todas aqui, todas! Como? A cabeça dele não presta! Ele não lembra nem que dia nasceu se duvidar! Mas, estão, todas, aqui. Todas elas estavam mesmo relacionadas, listadas.
   Antes que eu vi o que estava fazendo, catei outra folha na mesa, essa tinha apenas uma palavra. "Encantadora". Peguei outra, tinha um texto inteirinho relacionando nosso primeiro encontro. Logo abaixo dessa folha estava o segundo encontro. Achei relatos do primeiro beijo, passeios, livros, filmes, tudo, tudo o que eu podia lembrar de nós estava lá. Capas de CD's com um post-it em cima escrito "Jantar a luz de velas. 1 ano" que só podia ser o álbum que tocou no jantar que ele fez pra mim quando completamos um ano de casados. Achei fotos minhas perdidas, algumas copiadas em preto e branco por um lápis 6B. Em um quadro havia apenas um sorriso, que era meu, obviamente.
   Divertido ele começa a sorrir espontaneamente enquanto meu queixo cai com cada coisa que vou tirando da mesa. Já tirei meus pés do braço da poltrona a tempo e estou debruçada sobre a mesa de ideias, completamente absorta com tudo que há sobre nós. Com tudo que há sobre:
   - Meu Deus! Tudo isso - engasgo - tudo isso aqui - respiro fundo - é tudo - ah meu Deus! Cacete! - tudo...
   - Tudo sobre você meu bem. Tudo sobre você.
   E ele sorri.
   Agoniada eu me viro praquele sorriso bobo e dou um longo beijo em seus lábios, que prontamente correspondem com um beijo doce e apaixonado. Jogo meus braços sobre seus ombros, amassando as folhas em minhas mãos e ele poem suas mãos em meu rosto. O beijo se prolonga.
   Quando terminamos, sou impelida a perguntar:
   - Tudo sobre mim, mas, por que?
   - Ué, és minha inspiração. Quanto mais te conheço mais te quero. Lembra o que sempre te falo?
   - Que sou encantadora?
   - Também, mas outra coisa.
   - Que sou o amor da sua vida?
   - Também, mas ainda é outra coisa.
   - Que és o cara mais sortudo do mundo?
   - É tudo verdade, mas é outra coisa. Vai lá linda. O que falo desde que nos conhecemos?
   - Que sou a salvação do mundo?
   - Exato! Graças a você, ainda tenho esperanças no mundo. E me desse isso quando mais precisei.
   - Bobo. Me diz. O que é "sua aula me irrita"?
   - É um manifesto.
   - Por que? Pra que?
   - Por que até hoje estudas, até hoje te quero só pra mim, até hoje tenho que te compartilhar com a sua aula.
   - Bobo mesmo. Desde quando juntas as coisas sobre mim assim?
   - Muito tempo. Mas pra conseguir fazer tudo o que está aqui hoje demorei um mês e meio. Minha inspiração.
   E me rouba um selinho.
   Caramba. Me sinto em nuvens. Não reclamo nadinha do rock mais, juro por Deus. Nuvens, Nuvens, Nuvens. Perdida em tudo isso pergunto:
   - E agora?
   - Como assim?
   - Agora que vi o que estás fazendo, fazemos o que?
   - Não sei, tens aula amanhã, devias estar dormindo.
   - E se amanhã eu não for?
   Ele para. Parece que agora eu que o surpreendi.
   - Você! Você não ir pra aula? - ele pergunta meio debochado. - Até parece que Você não vai pra aula amanhã! Conta outra dentinho.
   E ri.
   - Falo sério seu bobo.
   Ele para de ri, apenas, sorri.
   - É sério mesmo?
   - É.
   - De verdade?
   - Sim.
   - Jura juradinho?
   - Juro.
   Ele para e sorri de novo, só para então dizer:
   - Que tal eu te amar como nunca antes e te levar para ver o nascer do sol em uma praia bacana?
   - Perfeito!
   - Mesmo?
   - Mesmo mesmo.
   Ele aumenta o sorriso e me beija forte, com intensidade sem igual. Mas pera, lembrei. Lembrei de algo muito importante. Olho para ele e pergunto:
   - Mas me fala, estavas chorando?
   - Não exatamente - encabulado - Sabes que mesmo que eu queira muito não é bem assim para mim chorar.
   - Mas choravas?
   - Sim.
   Opa! Pera! Isso pode ser ruim. O filho da mãe se arrepende?
   - Por que?
   - Por que fico impressionado como alguém completamente perfeita como você pode estar comigo. Me emociono. Agradeço a Deus. Ele tem que me amar demais para deixar que eu fique com a salvação do mundo em minhas mãos todos os dias até os fins dos dias.
   Dessa vez eu o beijo com força, com intensidade. Ele retribui. Eu me afasto e sussurro:
   - Te amo.
   - Obrigado.
   - Oi?
   - Obrigado.
   - Pelo que?
   - Por me amar.
   E isso repercute em minha mente o resto da noite. Obrigado. Obrigado por me amar. Obrigado. Obrigado por me amar. Obrigado. Obrigado por me amar. 
   Por me amar.
   Por me amar.
   E nos amamos.






terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

in the beginning..

23:30

- Quem é? - pergunto para a porta da frente.
- Sou eu. - responde uma voz masculina, e estranhamente familiar.
Não acredito nisso. Não posso acreditar que ele realmente veio.
- Não acredito nessas respostas. Eu quem? - pergunto, agora mais seca.
- Sou eu bonita, me deixa entrar.
Não acredito nisso. Eu realmente não posso acreditar que ele veio. Mesmo assim, destranco e abro a porta.
E é ele. O filho de uma mãe veio mesmo. Não acredito mas ele veio, acreditando ou não. Está a me olhar com seus olhos verdes, que me espreitam através de seu óculos levemente quadrado com armação esverdeada. O cabelo castanho claro está bagunçado, como sempre. E ele sorri, um sorriso jovem e despretensioso.  Um sorriso debochado.
- Meu Deus anjo. Que fazes aqui a essa hora? - Pergunto.
- Vim te salvar.
- Me salvar? - o que ele quer dizer com me salvar? - E quem disse que preciso ser salva? - Nessa hora reparo que ele carrega alguns sacos de papel pardo nas duas mãos. Quatro ao todo. Meu Deus, ele vai aprontar alguma...
- Seus olhos bonita, seus olhos. - ele fala, com aquele sorriso de deboche jogado diretamente contra o meu rosto.
- Só acredito que és você por causa que és a única pessoa no mundo que deve chamar alguém de bonita. Venha, entre. Está meio bagunçado, mas sabe como é.
Ele sorri e acrescenta:
- Claro que sim. É só não reparar.
Caminha firme e direto para a cozinha, afinal, ele já é da casa. Não é? Será que com isso ele tem o direito de ir entrando assim, tão auto confiante, sem jogar fora o respeito e a classe?
- A propósito. O que são essas sacolas? - resolvo perguntar.
- Seu aperitivo, jantar, e café da manhã. - ele responde, ainda sorrindo. - Me diz, bonita - e uma piscadela - pretendes ficar de roupão a noite toda?
Ai meu Deus. Como que não me lembrei?
- Meu Deus, desculpa. Estava indo para o banho. - tento me esquivar, mas é muito embaraçoso.
- Tudo bem, melhor assim. Vá para o banho que vou arrumando tudo aqui. - E no final da frase, o desgraçado acrescenta mais uma piscadinha.
- Tá bem. Vou tentar não demorar.
Ouço um resmungo e sei que é minha deixa para sair.
Meu Deus, ainda não acredito que ele realmente veio. Filho da mãe.
Entro na suíte e vou diretamente para o chuveiro. Eu estava para tomar um banho demorado, e quer saber? Vou mesmo! Ninguém mandou esse safado vir aqui  na hora do banho. Ele que aguente e espere também! Abro o chuveiro , ensaboo e massageio cada membro do corpo, tronco, pescoço, enxáguo e repito todo o procedimento. Quando me sinto mais limpa passo para o cabelo que está extremamente oleoso. Claro! Estou voltando de viajem, era para estar como? leve e ondulante? Ha! Essa é boa! Lavo o cabelo com calma, paciente, imaginando o que o idiota está fazendo na minha cozinha! Depois de massagear bem a cabeça com o shampoo, enxaguo e repito a operação. Será que ele acha que estou enrolando ele? Talvez eu devesse enrolar um pouco menos. Mas vamos sempre lembrar que a culpa disso é dele. Depois da segunda rodada de shampoo, passo para o condicionador, que como sempre, é da mesma linha que o shampoo. Aplico, espero, sinto a água com pressão massagear meus ombros, levando a ansiosidade embora com ela. Enxáguo e faço tudo novamente.
Assim que saio do banho, uma pressa descomunal toma posso de mim e quero repor o tempo perdido. Entro no quarto propriamente dito e procuro uma roupa para vestir. Acabo optando por um short jeans azul claro e uma camiseta básica branca, bem folgada,  afinal, estou em casa e não pretendo sair daqui de jeito nenhum! Um chinelinho para terminar o look caseiro, nada de maquiagem, mas não ouso sair sem uma pequena dose de perfume, nada de mais, só pra dar um cheirinho por mais tempo. Uma cativada.
E então, agora até que me sinto mais preparada para encarar o que raios esse moleque está pensando que está preparando na minha cozinha, na minha casa, no meio da noite.
Quando saio do quarto escuto um grande estouro do lado de fora da casa e tenho certeza que a meteorologista acertou na previsão de uma grande tormenta sobre a cidade nessa noite, melhor fechar tudo. Mas quando vou para a janela da sala percebo que ela já está fechada e vejo que estou sendo observada.
- Desculpa bonita, mas acho que irá chover litros de água hoje, então tomei a liberdade de fechar as janelas da casa. Só falta a do seu quarto. - ele pega dois copos de shots em cima do balcão da cozinha, que aparentemente já estavam completamente preparados e caminha em minha direção estendendo a mão - Para melhorar o seu ânimo.
- Meu animo está muito bem, obrigada! - respondo secamente, não sem um sorriso, mas não deixo de aceitar o copinho. - o que colocasse aqui dentro? - pergunto.
- Nada de mais. Pode tomar sem erro que não vais se arrepender! - uma pausa, ele me olha pensativo e acrescenta - aliás, um brinde! A essa noite! E que ela nunca acabe! - então entorna o copinho em um grande gole.
E pelo jeito, agora é minha vez. Viro o copinho em um grande gole, tentando parecer extremamente corajosa, mas tenho certeza que a minha careta me trai. Deus! Como algo pode ser tão quente, doce e picante ao mesmo tempo? Delicioso.
Ele ri da minha careta, pega meu copinho e volta para o interior da cozinha sugerindo como quem não quer nada:
- Bonita, que tal uma musiquinha para dar um clima? Ou quem sabe para esquecer um pouco os trovões lá fora, ein? - aproveita e me manda um sorriso por cima da bancada da cozinha e como se fosse para acentuar o que ele falou, estoura outro trovão com um som cortante pela casa.
- Claro que sim - respondo - alguma preferência?
- Não não, o que escolheres estará ótimo!
Caminho pela sala arrastando os chinelos atrás de mim e chego ao aparelho de som. Eu particularmente ainda prefiro muito mais os CDs. Não é pela qualidade, lógico, mas pelo sentimento em si, de escolhermos um álbum, um artista, uma época. Começo a procurar na minha pilha e acho algo que talvez combine. Just Let Them Talk, Hugh Laurie.
A música começa, me viro, e vejo que ele já está colocando uma tábua de frios em cima do balcão, exatamente a frente de uma baqueta. Me dirijo até ela, me sento e reparo que ele preparou alguns queijos e salaminhos em cubinhos, junto com alguns legumes em conserva. Está perfeitamente arrumado e parece extremamente apetitoso.
Ele me oferece um palitinho, pega um para ele e ambos começamos a beliscar alguns dos frios. Os queijos são maravilhosos! Gente! Que delícia!
- Me diz, que queijos são esses? Estão maravilhosos!
Ele resmunga um pouco, engole o queijo que estava degustando lentamente e responde.
- Esses são queijos uruguaios. Trouxe da minha ultima viagem.
- Nossa! Muito saborosos!
Ele sorri, se vira e começa a mexer com algumas vasilhas e cumbucas que já estão sobre a pia. Me levanto, pego uma cerveja na geladeira, distribuo em dois copos, coloco um ao lado dele, sobre a pia e volto com o meu para meu banquinho, extremamente curiosa.
- Me fale mestre, o que estás pensando que estás preparando? - pergunto de maneira bem humorada.
- Salmão com molho de maracujá e batatas sauté. Uma saladinha verde para acompanhar. Que tal? - e lá está o sorriso dele sendo jogado na minha cara de novo.
- Perfeito! Adoro salmão! - e é verdade.
Ele sorri, se volta novamente para a sua bancada de trabalhos onde está picando cebolinhas e toma um gole de cerveja.
- As corridas tem feito bem à você pelo que me parece - arrisco.
- A sim, com toda a certeza. Emagreci 15 quilos desde que voltei a correr. Me sinto muito melhor e disposto hoje em dia.
- Bom, muito bom. Eu tentei fazer academia semestre passado.
- De novo?
- Sim, de novo. Durou 3 semanas e larguei tudo. Não consigo me forçar a ir malhar.
Então ele da uma risada gostosa e espontânea.
- Faz muito o seu tipo essa atitude mesmo. Mas pelo menos tentasse.
- É, tentei.
- De novo
Ele descasca as batatas e prossegue tranquilo, como se soubesse exatamente o que está fazendo. Mas aposto que não sabe. Entretanto, tem a mão firme enquanto faz os preparativos.
- Ainda trabalhando com música? - pergunto, querendo puxar assunto. Afinal, ele está cozinhando para mim na minha casa.
- Sim sim, não acredito que vou sair dessa vida sabe?
- Hmmm, por que?
- Por que foi Deus que escolheu ela pra mim. Não sei como não trabalhava com música antes. É muito eu isso. Muito minha vocação e muito o que gosto de fazer. Nem sei se posso considerar um trabalho.
- Aí sim que é legal.
- Sim, o trabalho dignifica o homem.
- Aé?
- Não sei, mas me falaram isso e achei que faz sentido.
- Ah, entendi. Ainda falando com a Clara?
- Não, não sei dela a 10 anos.
- Quer dizer que nunca mais falasse com ela? Desde o ocorrido?
- Nunca.
- Isso não machuca as vezes?
- Nos primeiros 2 anos talvez. Mas acostuma, depois supera, sabe.
- Aham.
- Como pretendes seguir agora? Alias, está tudo bem com você?
- Está sim, quer dizer, já se foram 2 meses né. Acho que o pior já passou. Mas não sei se quero ficar 10 anos sem falar com ele.
Ele ri. Suave e espontâneo ele ri.
- Claro, imagino que não queira. Eu também não queria.
- Então por que não se falaram mais?
- Ela falou, hmmm, coisas. Muitas coisas no calor do momento. E quando fui conversar com ela, muito pouco tempo depois, algo como um mês, não sei, ela estava namorando o Carlos.
- O Carlos? Filho da Cláudia?
- Isso.
- Mas vocês não eram melhores amigos?
- Éramos.
- Nossa, que grande bosta.
- Acontece, a vida é assim. Nem sempre por bem e nem sempre para o bem.
Ele sorri calmamente, tranquilo, e muda de assunto.
- Então, espero que gostes de molho branco com alcaparras. Acho que combina muito com salmão.
- Claro - ele não está abalado, eu acho, só está desviando de assunto - Muito boa escolha.
Assim continuamos conversando até que o salmão ficou pronto. Arrumei a mesa, ele abriu o vinho e continuamos conversando sobre tudo e nada durante o jantar. Aliás, o jantar estava completamente delicioso. E peixe foi a melhor escolha possível, pois comemos bem e não nos sentimos pesados, enjoados, nada disso.
Quando terminamos o jantar, ele trouxe um sorvete de passas ao rum, que eu adoro, e que ele sabe que eu adoro. Comemos e conversamos mais um pouco, até que ele recolheu os pratos da mesa e os depositou na pia.
- O que faremos agora sabichão?
- Ver um filme, claro. - ele responde sorrindo, debochado - Ou tens alguma ideia melhor?
- Não não, filme está ótimo pra mim. Que filme trouxesses?
- Diário de um jornalista bêbado. Não sei se é bom, mas que eu queria ver esse filme a um tempo eu queria, então trouxe.
- Legal! É com quem?
- Nosso amigo Johnny Deep.
- Opa! Então deve ser legal mesmo.
- Tomara.
Ele vai para o meu quarto, volta com uma colcha e pega o filme na mochila perto da cozinha.
Sento no sofá e ele senta ao meu lado, passando o braço por traz da minha cabeça e envolvendo meus ombros. Não resisto e me encolho para junto dele, repousando minha cabeça em seu ombro. Seu corpo é quente e me traz segurança. Quando estou profundamente confortável ele fala:
- É, eu só esqueci de colocar o filme.
A sacanagem. Assim não dá! Logo agora?
- Assim não dá. Pode deixar que eu ponho.
Me levanto e vou colocar o filme. Tinha que ter esquecido? Tinha? Coloco rapidamente, pego o controle, volto e sento novamente do mesmo jeitinho que eu estava.
- Aqui ó, pega esse controle e faça tudo. Pra mim basta ficar aqui com você.
Não sei bem o que foi engraçado, mas ele ri com gosto, estala um beijo na minha testa e pega o controle da minha mão.
- Pode deixar bonita. Cuido disso para você.
Ele faz um carinho gostoso em meu braço, alcança minha cintura e repousa a mão ali. Como é tranquilo e gostoso isso aqui assim. Podia ficar assim por anos que não iria me importar.
O filme começa, e tirando um ou outro estalo que sinto quando ele me beija no alto da cabeça, nada de mais acontece. A menos que aches que dormir em 45 minutos de filme é algo que deva ser relatado.
Acordo com seus dedos brincando com mechas do meu cabelo e seus olhos brilhando abertos no escuro, olhando bem para meu rosto. Seus dedos acabam passeando pelas curvas e contornos do meu rosto, suave, com calma, paciência. E então ele sussurra:
- Bom dia bela adormecida. Como foi a noite?
- Ai, sério que já é de manhã?
- Não, o filme acabou faz uma meia hora.
E mesmo não podendo ver, tenho plena certeza de que o safado está sorrindo! Sorrindo!!
Ele me aperta junto dele, se prepara e fala:
- Venha, vou te levar até o seu quarto.
Me pega em seus braços, levanta com facilidade enquanto eu apenas tento resmungar que não preciso. Mas na verdade, estou adorando. O jeito delicado de ele me levar, cuidar de mim, me apreciar, é tudo que eu precisava para essa fase. Acho até que estou começando a entender o que ele estava dizendo com "salvar você". Se ser salva é isso, quero ser salva mais vezes.  Ah, quero mesmo!
Ele me deita na cama com ternura, afofa o travesseiro, me cobre e sai. Pera aí, nem um boa noite, um beijo, nada? Nem consigo terminar de formular todas as críticas na minha cabeça adormecida, e ele aparece com uma caneca fumegante.
- Trouxe um chá para o sono da Cinderela. - ele sussurra brincando.
- Muito obrigada, assim está bem melhor.
Ele senta na beira da cama e observa enquanto dedico minha atenção ao chá e o absorvo em pequenas goladas. Pelo menos eu tento dedicar minha atenção ao chá! Ele por outro lado não está tentando nada além de me encabular!
Termino meu chá, ele toma a caneca das minhas mãos, me ajeita novamente na cama, me da um beijo delicado na testa, deseja um boa noite bem tranquilo, se vira, sai e fecha a porta.

Por algum motivo eu acabei achando que iria demorar para pegar no sono, mas não sei o que raios que ele colocou naquele chá, só sei que está fazendo efeito! Durmo antes mesmo de saber que dormi, e pela primeira vez em meses, não sonhei com meu término, mas sonhei com um novo começo.