terça-feira, 29 de novembro de 2011

c'r cnist'r.. capítulo 1 - 2

   "Ei Paulo! To livre aqui ó" grita um Ramy desesperado, livre de qualquer marcação na entrada da pequena área, na final do campeonato juvenil da rua São Jorge, a rua que o Paulo morava. Eram 14:37 do segundo tempo. Quando um tempo tem 15 minutos, esses detalhes podem fazer toda a diferença. Ramy não estava na melhor posição, ele estava na posição perfeita para receber o passe e ainda escolher o lado que quisesse marcar o gol que daria a vitória ao time sem camisa por 3 a 2. A única coisa que precisava ser feita era o Paulo passar a bola para o Ramy.
   Mas o Paulo nunca passou a bola, porque passaria hoje?
   Desde os cinco anos de idade eles jogam juntos. Acabaram se conhecendo mais do que qualquer pessoa pode conhecer alguém. Desde que se conheceram, a cinco anos atrás, se tornaram inseparáveis, seja no campo, na escola, no lazer ou nas brigas. Com 10 anos, cada um já tinha um dedo quebrado, perdido dois dentes de leite, sem falar dos incontáveis hematomas e ralados. Não, não foram tudo de brigas, tiveram acidentes de bicicleta, tropeços quando foram correr depois de pregar uma peça, complicações ao pular o muro da casa 13 depois de amarrar o rabo do gato na cerca, essas coisas de garoto. E no futebol também.
   Paulo viu o Ramy sozinho e livre pra receber o passe, e era um passe fácil pra se fazer, era gol garantido. Ele veio correndo pelo lado direito do campo, olho para o Ramy, calculou a força do chute, e quando o zagueiro ao seu lado chegou para tirar a bola ele cortou numa jogada rápida por entre as pernas do zagueiro e chutou a bola com a maior força que conseguiu.
   E a bola, rasgada em dois lados, viajou.
   Com uma velocidade incrível ela se deslocou em direção ao gol, sim, ao gol. Todos no mundo da rua São Jorge pararam para ver a viagem que a bola mais rápida já chutada contra um gol de chinelo fez.
   A bola passou pelas mãos inadequadas do goleiro, e mexeu o chinelo do lado esquerdo. Ou melhor, a trave esquerda. E a regra de futebol com chinelos é clara: mexeu o chinelo, é trave. Trave não é gol. Mexer o chinelo, não resulta em gol.
   Falhou.
   O suspiro de "uuuu" se espalha pelos dois times, pela arquibancada e pelos corações de Ramy e Paulo. Ramy chateado, Paulo sem olhar para Ramy, envergonhado.
   É em momentos de dificuldades como esses que se mostra a diferença de caráter entre as pessoas. É fácil ser amigo quando se amigo faz o gol da decisão, quero ver é você fazer como o Ramy, que abraçou o Paulo e disse:
   "Amigo, foi um dos chutes mais lindos que você já deu." e sorriu.
   "Sai daqui Ramy" disse um Paulo revoltado se desvencilhando de um dos abraços mais sinceros que ele poderia receber.
   "Poxa brother. Só falei que foi bom, caramba."
   "Tu qué é me lembrar que eu podia ter te passado. Chinelo de lixo." disse um Paulo muito revoltado. Sem motivo pra toda essa revolta, claro.
   "Relaxa brother." Ramy disse baixinho.
   "Relaxa nada Ramy. A droga do gol tava feito, eu chutei certo, fiz tudo certo. Chinelo de lixo."
   "Tem os pênaltis cara. Caramba, da nada." Ramy disse ainda mais baixo.
   "Da nada??" gritou Paulo. "Da nada?? A gente não precisava desses pênaltis. Não precisava mesmo."
   Paulo se virou e saiu apressado, ainda com a respiração pesada. Se dirigiu até a mangueira mais próxima e bebeu água sem parar pelo próximo minuto inteiro, aproveitando no fim para lavar o rosto e inundar o cabelo. Se existia piolhos ali, morreram afogados.
   Ramy não fez nada. Ficou parado em silêncio olhando o melhor amigo se afastar todo revoltado.
   "O que aconteceu aqui entre vocês Ramyzinho-inho?" disse uma vozinha baixa, suave e doce de menininha.
   Ramy olhou para o lado sobressaltado e meio assustado. Não é sempre que uma voz feminina vem e se auto gera em meio ao nada como se sempre estivesse ali só esperando que algo acontecesse para desaflorar e assustar uma criança inocente, como é o caso do Ramy nesse exato momento.
   "Mia! Que susto! Nem ouvi você chegar."
   "Ha! Meu irmão que me ensinou essa de andar como gatinho. Acho que ele viu num filme." disse sempre baixinho Mia, irmã de Paulo.
   "Seu irmão é muito esperto pra idade que a gente tem, sempre falo isso pra ele." disse um Ramy tão baixo quanto a Mia irmã do Paulo. Quem visse essa conversa de fora poderia jurar juradinho que eles estavam cochichando e tramando algo.
   "O que aconteceu? Ele nunca grita com você."
   "Eu sei Mia. Eu sei."
   "Ele nem ta triste com você né?"
   "Acho que não. Acho que ele está triste com ele mesmo." Ramy respondeu mais pra ele do que pra Mia.
   "Acho que você também é muito esperto pra idade de vocês" disse Mia com sinceridade.
   "Achas?" Ramy estava surpreso.
   "Acho." disse uma envergonhada Mia.
   "Obrigado Mia. Agora vou la que tenho que fazer um gol de pênalti."
   Ramy ia saindo quando foi chamado por uma encabulada Mia.
   "Ramy!" ela disse mais alto do que o normal mas mais baixo do que a maioria.
   "Ah, fale Mia"
   "Boa sorte!"
   Ramy fez o gol. Paulo também. Ambos foram tomar chocolate quente na casa do Paulo com Mia sempre quieta e presente ao lado dos dois e um seu Martin muito orgulhoso dos 3 sentados na mesa da cozinha comendo o segundo pacote de bolacha recheada. Crianças comem muito mesmo, ta louco, pensou Martin todo orgulhos e sorrisos.
 

***



c'r cnist'r.. capítulo 1 - 1


   "Olá menino" disse Ramy olhando para o rosto confuso do rapaz sentado na escadaria de mármore branco da Igreja da Graça. O menino em questão, estava usando um terninho preto, gravata borboleta preta, uma calça social preta e sapatinhos pretos engraxados e brilhantes de tanto serem lustrados. Cabia perfeitamente nele, mesmo com apenas 5 anos de idade.
   "Oi" disse baixinho e encabulado o menino sentado na escadaria de mármore branco, levando os olhos diretamente para seus próprios pés, completamente sem graça.
   "Meu nome é Ramy." disse um Ramy todo animado. "Qual é o seu?"
   "Paulo" disse um Paulo em voz baixinha e encabulada sentado na escadaria da Igreja da Graça, sem tirar os olhos dos sapatinhos lustrosos e brilhantes.
   "Quantos anos você tem?"
   "Tenho 5." respondeu Paulo.
   "Nossa que legal, eu também. Legal né? A gente tem a mesma idade."
   E então, pela primeira vez nos últimos minutos, Paulo levanta seu olhar para ver, pela primeira vez, quem está a sua frente. Um garotinho franzino com cabelo ruivo bagunçado, meio curtinho, sardinhas cobrindo o rosto inteiro como se fosse ferrugem, uma camisa do Flamengo, short de jogador e um chinelo Havaianas. O garoto com um claro sorriso no rosto fino, os olhos verdes brilhando de entusiasmo, loucos e ávidos pela resposta tão esperada.
   Paulo abre a boca para responder, fecha, e volta os olhos para seus sapatinhos lustrosos.
   "É." foi tudo o que um decepcionado Paulo respondeu.
   "Sabes que que tem esse monte de carros estacionados nessa igreja aqui hoje? sabes? sabes?"
   "Sei."
   Silêncio.
   Ramy nem entendia qual era o problema desse Paulo engravatadinho. Como que um menino de 5 anos pode estar sentado numa escadaria de mármore branco com uma roupa de gente adulta e sem o menor interesse pela montuera de carros estacionados bem em frente a ele? Como isso é possível?
   "Eee?" ele disse tentando dar uma corda para seu companheiro ir em frente.
   "Eles vieram dar tchau para a minha mãe." respondeu o sempre calmo e tristonho Paulo.
   "Ai que legal. Ela vai viajar é?"
   "Não."
   "Eee, mas, então... como assim?" disse um Ramy agora mais confuso do que nunca.
   "Meu pai me disse que ela foi visitar Deus pra dizer pra Ele como eu sou um menininho querido."
   "Noooossaaaa. Que doido. Como ela fez isso?" disse um Ramy agora mais animado do que nunca.
   "Não sei." respondeu o sempre tristonho Paulo.
   "Como assim?" de novo o confuso Ramy.
   E então, bem baixinho, como se pra não assustar a própria consciência, Paulo responde:
   "É que, ontem ela não acordou de manhãzinha. Meu pai disse que ela tinha ido falar com Deus. Mas ela ainda não voltou, e agora sempre vem gente chorando na minha casa e ficam me abraçando e abraçando meu pai. Isso tudo é muito chato. Eles não sabem que ela pode se distrai na visita dela pra Deus?"
   Silêncio.
   "Ei Paulo querido!" disse um senhor mais velho, com cerca de 30 anos pelas costas de Paulo. Ramy levanta os olhos e da de cara com o rosto de um Paulo mais velho. "Tudo bem aqui filhão?"
   "Tudo pai." disse um Paulo já se levantando. "Esse é meu amigo, o Ramy."
   "Ah, claro" disse um senhor Paulo mais velho todo sorrisos e carinhos já estendendo a mão para um Ramy estupefato com a grande semelhança desses dois parados na sua frente. "Sou o Martin, pai do Paulo. Vocês se conhecem a tempo?"
   "Na verdade não pai," responde Paulo "mas ele é bem legal."
   "Ah que bom. Você mora aqui por perto Ramy?" disse o sempre risonho Seu Martin.
   "Moro sim, duas ruas descendo aqui ó." ele respondeu apontando para a direita.
   Seu Martin, com uma grande ideia em mente, aproveita a oportunidade e pergunta:
   "Que bom, a gente mora aqui na rua em frente, naquela casa azul, Ta vendo?"
   "Aham."
   "Quer ir la em casa amanhã tomar um chocolate quente comigo e com o Paulo? Vocês podem jogar bola depois. O que vocês dois acham?"
   Um Paulo e Ramy se entreolharam, loucos e animados com a perspectiva de uma tarde muito divertida e respondem em uníssono:
   "Sim. Com certeza."
   E os três se desatam a rir inocentemente.
   "Então," começa Ramy "vou para minha casa que minha mãe deve estar me esperando. Diz para a sua que ela tem um filho bem legal. Até amanhã então. Tchau."
   E assim como surgiu, sumiu saltitando pela rua um Ramy todo animado e alegre, assoviando feito uma criança que vai visitar um grande amigo no próximo dia para tomar chocolate quente e jogar bola, deixando atras de si, um estupefato Seu Martin e seu um pouco mais animado filho, Paulo, que olha para o pai e sorrindo pergunta:
   "O pai, a mamis já acordou?"



***