O despertador marca 2:43. Duas e quarenta e três. Duas. E. Quarenta. E. Três. Por que raios está tocando esse rock as 2:43 da manhã no estúdio ao meu lado? Duas e quarenta e quatro. Vá se ferrar John!
Levanto, ponho o pé no piso e estremeço com o gelo que encontro nele. Pantufas! Pantufas Inferno! Cadê a droga das pantufas?! Duas e quarenta e cinco. Duas. E. Quarenta. E. Cinco! Merda!
Acabo achando as pantufas do lado oposto ao bidê, o que completa o visual meio sem sentido de estar apenas de calcinha e camiseta preta do Ramones. Ele adora essa camiseta. E pantufas! Mas pelo menos meu pé não gela mais. E esse rock? Qual o sentido? Droga John! A essa merda de hora?
O estúdio é tudo que importa para ele. Eu sei. Ele é artista e tal. É o lugar onde ele é ele. Começou como uma brincadeira, mas logo eu já tinha entendido que só eu encarava dessa forma. Para ele é um refúgio, um quarto sagrado. Já achei ele bêbado e pelado jogando tinta nas paredes aleatoriamente lá dentro. Naquele dia foi a primeira e a última vez que eu me questionei por que que estava com ele. Por que? Por que ele é um artista! Adoro isso nele. Ele não é imprevisível, só tens que aprender a compreende-lo. É um anjinho vestido de demônio no fim das contas.
Abro a porta e me deparo com o que eu menos esperava. Esperava umas cadeiras reviradas, amplificadores ligados, ou mixagens em andamento, ou pinturas novas nas paredes. Quem sabe achar ele bêbado? Esse rock todo tem que ter um motivo, sei que ele gosta, mas ele costuma manter isso no fone e não no estéreo. Para você, deve aparentar que ele é como todo artista, drogado e bêbado. Mas, devo adverti-lo de que isso é mentira. Ele demora 3 anos para acabar com uma garrafa de vodka, isso que normalmente metade acaba indo pelo ralo, ou pra algum parceiro, "caramadinhas" como ele mesmo chama. Ele é muito controlado para um artista. Talvez por isso esteja indo tão longe. Talvez por isso esteja vivo.
Quando abro a porta, encontro o quarto "estúdio", talvez devesse se chamar ateliê, refrescado pelo ar-condicionado em uma temperatura muito agradável, tudo desligado com exceção do estéreo e do notebook a frente dele. O quarto-estúdio-ateliê tem uma janela na parede oposta a porta, onde ele resolveu colocar sua mesa de idéias, que não difere em nada de uma escrivaninha normal. A persiana sempre aberta para poder olhar a vista da cidade do outro lado do vidro. Sua mesa de ideias está atulhada com folhas arrancadas de um caderno de desenho, que é onde ele costuma escrever suas ideias, suas inspirações. Diz ele que as linhas atrapalham o raciocínio. E eu acredito. As guitarras ficam enfileiradas na parede a direta. Uma telecaster bege que já foi branca chamada Elisabeth começa a fila, ele a chama de Lisa. Em seguida temos uma Firebird azul que se chama Isabella. Ele a chama de Bella. Terminamos com uma Manhattan amarela chamada Sophia. Só Sophia. Na parede oposta temos amplificadores. Um AC 30 dos anos 80, um '59 Bassman e um Blues Junior que ele tem mais do que um carinho especial. Um cavalete de pintura está posicionado ao lado dos amps com muitos rabiscos. Do teto pendem aproximadas 50 lâmpadas, mas hoje ele decidiu acender apenas a luminária central, uma extremamente futurista, que contrasta com tudo nesse quarto-estúdio-ateliê. Quadros e mais quadros vestem as paredes, com exceção da parede esquerda, a dos amps, que é revestida com chapas de espelhos longos na horizontal, mas nenhum tem mais do que 15 centímetros de altura e são separados por precisos 5 centímetros.
É nesse lugar que eu entro, assustada ao ver o quantidade de escritos rabiscos e desenhos abstratos que preenchem sua mesa. O estéreo continua tocando alto, portanto ele não me ouve entrar, não se vira, não se mexe. Está recostado em sua poltrona de escrita com uma garrafa de água na mão. Água. Rock e água. Só na cabeça dele mesmo. A música, identifico logo, é de uma banda chamada Interpol. Reconheço por que gosto.
Avanço lentamente, tentando ver o que mais pode estar fora do lugar além da garrafa de água que não combina com nada aqui. Seu braço todo colorido pelas tatuagens erguem a garrafa de água, que ele usa para coçar a lateral da cabeça, do lado direito, o único com um alargador. As tatuagens são uma mistura de flocos de neve em tons azulados que terminam com uma rosa presa sobre sua mão. Cada floco parece em movimento na pele dele, e ganham vida quando ele volta escorrendo de uma corrida. Mas hoje estão estáticos.
Quando chego próximo do meu amado, meu artista, vejo que apesar de ele ter rabiscado muito, muito mesmo, em cada folha que poderia estar a sua frente, a tela do notebook exibe uma página em branco. Quer dizer, estaria completamente em branco se não fosse por uma frase escrita em letras pequenas bem no centro de uma página completamente branca. Tudo que se lê na frase é:
"sua aula me irrita"
Abraço seus ombros e ele estremece sob meu toque. Depois do leve susto e do pequeno arquejo ele se vira para mim e vejo pelos seus olhos e pelo rosto inchado que ele andou chorando. Atônita por conta do rock alto no estéreo e do meu amado chorando sozinho no quarto-estúdio-ateliê que fica ao lado do quarto em que dormimos nesses belos 7 anos de casados, e sem aguentar mais isso, começo a chorar de levinho e pergunto:
- Querido, está tudo bem?
Ele, como sempre todo doce, me puxa delicadamente para o seu colo enquanto empurra levemente a poltrona para traz e para o lado, abrindo um espaço por onde eu possa entrar e me refugiar em seu colo, jogando as pernas por cima dos apoios da poltrona e encostando minha cabeça em seu peito.
No mesmo movimento fluído ele alcança o controle do estéreo e abaixa o volume até que ele fique apenas como uma música leve de fundo. Olha para mim, para o fundo dos meus olhos, um olhar tão fundo que não sei como alguém pode ser capaz de trazer um olhar tão fundo assim, tão íntimo. Juro que ele consegue ler minha alma com esse olhar. Juro! Ainda me olhando ele responde:
- Tudo lindo, bonita. Agora que estás aqui está tudo lindo.
- O que pensas que estás fazendo acordado agora, tarde assim, com esse rock rolando solto no ouvido?
- Nada de mais meu bem.
- Como nada demais? Me preocupo com você, sabes disso. És meu bem querer, nada menos que isso.
- Eu sei docinho, eu sei. Mas não é nada mesmo.
Quero insistir um pouco mais, pressionar um pouco mais, mas sei que isso só faria com que ele ficasse desconfortável na minha presença, então recuo um pouco e pergunto com calma:
- Queres que eu saia? Posso sair, só queria que abaixasses um pouco o volume que estou acordando direto.
Ele olha surpreso pra mim, como se eu estivesse sugerindo algo impossível. Ah não moço, nem vem. Sabes muito bem que estava bem alto essa droga de volume! Mantendo o olhar em mim ele responde:
- Mas, mas, mas... mas já? Acabasse de chegar. Fica um pouco.
Pera. ficar?!? Espera aí, ficar? Ele está me chamando pra ficar com ele no quarto-estúdio-ateliê onde nem mesmo seus "caramadinhas" ficam enquanto ele está trabalhando e escrevendo suas ideias? Eu?
- Eu? er, quero dizer, queres mesmo que eu fique?
E pra surpreender de vez ele responde:
- Claro amor! És tudo pra mim. Fique aqui, te mostro o que tenho feito.
Me mostrar? Me mostrar o que tens feito?
- Me mostrar? Me mostrar o que tens feito? É sério?
Ele me olha intrigado, como se eu não soubesse bem o que estava fazendo, como se eu estivesse dormindo, como se eu fosse uma criança. E com carinho responde:
- Claro linda, claro. Fique aqui comigo.
- Tem certeza? Não vou atrapalhar? - tem certeza mesmo que não vou atrapalhar? Olha, não é muito normal de você isso. Eu? Eu?
- Claro que não! Como minha linda esposa poderia me atrapalhar? Só me inspiras mais. Ué!
Ai meu Deus! Ai meu Deus! Ai! Meu! Deus! E agora? As vezes eu esqueço como ele gosta de ser carinhoso e amoroso. Ai que boba que sou!
- Ta bom, só vou colocar um shorts.
- Não não, não precisa! É rapidinho e já vamos dormir meu bem.
- Ai, ta bem então. Me mostra, o que estás aprontando por aqui? Pelo que vejo só parasse para me colocar pra dormir né.
Ele ri com gosto, com doçura e diz:
- Mais ou menos isso. Mais ou menos isso.
Mais cedo naquele dia nós havíamos jantado, ele preparou o famoso salmão ao molho de maracujá que me conquistou quando ele veio me salvar. Ele gosta de cozinhar. Pelo menos três vezes por semana ele é o responsável pelo jantar. E o desgraçado é bom nisso ainda por cima! Me encanta toda vez! Depois do jantar eu fiquei com a louça e ele foi pro estúdio. Só saiu de lá perto das onze horas, quando eu já estava deitada mas sem conseguir adormecer. Então ele entrou no quarto com seu shorts que todos usam para jogar bola mas que ele usa em casa, por ser mais confortável e não sei o que, uma camiseta básica, deita do lado dele da cama, se aninha em mim que estava virada para o lado oposto do lado da cama. Sinto seu cavanhaque arranhando docilmente meu ombro, os estalinhos que reproduzem os beijos que ele me dá no pescoço, enquanto ele acaricia minha cintura e me puxa bela barriga para mais perto dele. E isso sim é o céu na terra! Posso ficar assim pra sempre! Para todo o sempre! Quero olhar pra ele, beija-lo, mas ele sussurra ao meu ouvido:
- Relaxa amor, precisas descansar. Deixa que eu te ponho pra dormir hoje.
Tão doce, tão sedutor. Como recusar? Reclamar?
Ele começa a por meu cabelo delicadamente atrás da orelha, do jeitinho que ele gosta. Se aproxima e já começo a me arrepiar antes de senti-lo. Ai Deus! Agora não agora não agora não por favor! Mas é tarde. Senti sua respiração subindo provocativamente pelo pescoço e fazendo cócegas atrás da orelha. Começo a rir e a me contorcer como ele sabia que eu iria fazer. Então ele para e beija o contorno da orelha, meu pescoço, se estica e estala um beijo na minha bochecha, até que eu fique relaxada novamente. Então começam os carinhos e massagens nas costas. Sério que isso é pra fazer com que eu durma? Por que é tão bom que dormir é a última coisa que vou fazer! Mas inacreditavelmente vou relaxando mais e mais. E sentir o corpo dele, esse calor, essa doçura tão próxima de mim, me faz querer mais e menos ao mesmo tempo. Delicadamente ele massageia meus cabelos e o couro cabeludo por trás deles. E quando vejo a única coisa que eu sei é do rock tocando alto no quarto ao lado e minha batalha de permanecer na cama.
Agora, aqui no estúdio, só nós dois, ele puxa uma folha debaixo de uma montanha de papéis que pra mim não significam nada e me mostra. Seguro em minhas mãos e dou de cara com o que claramente é apenas o cabelo de alguém desenhado no papel. Muito bem desenhado. Tão bem que reconheço no mesmo momento o que é:
- Meu Deus! - Meus Deus! - Isso é - Isso é - é - é - é o que.. - o que? não pode ser.. mas - isso parece.. - Não pode ser, meu Deus!
- É o penteado que usasses na primeira vez que nos vimos.
- Mas - Mas - meu Deus amor - Mas caramba filho da mãe! Está igual. Liso, jogadinho pelos ombros que não estão aqui, com uma mecha caindo pelo rosto que não está aqui - está, lindo, perfeito.
Enquanto continuo vislumbrando-me apenas nessa cabelo retratado com tanto, tanto, tanto movimento, ele pega outra página perdida pela mesa e entrega nas minhas mãos.
- E o que teremos - Cacete! O que é isso agora? - O que temos aqui?
É uma página com um desenho que mostra um rapaz mau desenhado sendo envolto e sufocado por palavras que sobem e atingem em espiral, que o envolvem, o afogam e o asfixiam. Palavras coloridas entre tons de roxo e azul, um azul celeste. Pintado com tinta a base de óleo, percebesse, pelas manchas propositais. Sem entender pergunto de novo:
- O que é isso? Que que quer dizer?
- É o efeito que seu perfume teve sobre mim.
- Mas, ele está te sufocando, maltratando.
- E foi mais ou menos isso, tirando que eu gostei demais. Ele me alucinou é verdade.
- Entendo. - Entendo.
Com as duas folhas em minhas mãos e ainda absorta, embasbacada, e tão entretida com as representações dele, nem percebo que ele tem outra folha em mãos, que ele me entrega assim que me recomponho um tanto.
É uma lista, percebo logo. Bandas. Leio em voz alta:
- Los Hermanos, Death Cab For Cutie, The Beatles, The Strokes, Interpol, Silva, Moptop, Modest Mouse.. - e paro. Paro por que a lista é imensa. Tem de tudo. - O que é isso meu bem?
- As bandas que me lembram de você.
Meu Deus. Estão todas aqui. Ouvíamos elas em viagens, dias, almoços, encontros, mandávamos um pro outro. Estavam em todos os lugares. E estão todas aqui, todas! Como? A cabeça dele não presta! Ele não lembra nem que dia nasceu se duvidar! Mas, estão, todas, aqui. Todas elas estavam mesmo relacionadas, listadas.
Antes que eu vi o que estava fazendo, catei outra folha na mesa, essa tinha apenas uma palavra. "Encantadora". Peguei outra, tinha um texto inteirinho relacionando nosso primeiro encontro. Logo abaixo dessa folha estava o segundo encontro. Achei relatos do primeiro beijo, passeios, livros, filmes, tudo, tudo o que eu podia lembrar de nós estava lá. Capas de CD's com um post-it em cima escrito "Jantar a luz de velas. 1 ano" que só podia ser o álbum que tocou no jantar que ele fez pra mim quando completamos um ano de casados. Achei fotos minhas perdidas, algumas copiadas em preto e branco por um lápis 6B. Em um quadro havia apenas um sorriso, que era meu, obviamente.
Divertido ele começa a sorrir espontaneamente enquanto meu queixo cai com cada coisa que vou tirando da mesa. Já tirei meus pés do braço da poltrona a tempo e estou debruçada sobre a mesa de ideias, completamente absorta com tudo que há sobre nós. Com tudo que há sobre:
- Meu Deus! Tudo isso - engasgo - tudo isso aqui - respiro fundo - é tudo - ah meu Deus! Cacete! - tudo...
- Tudo sobre você meu bem. Tudo sobre você.
E ele sorri.
Agoniada eu me viro praquele sorriso bobo e dou um longo beijo em seus lábios, que prontamente correspondem com um beijo doce e apaixonado. Jogo meus braços sobre seus ombros, amassando as folhas em minhas mãos e ele poem suas mãos em meu rosto. O beijo se prolonga.
Quando terminamos, sou impelida a perguntar:
- Tudo sobre mim, mas, por que?
- Ué, és minha inspiração. Quanto mais te conheço mais te quero. Lembra o que sempre te falo?
- Que sou encantadora?
- Também, mas outra coisa.
- Que sou o amor da sua vida?
- Também, mas ainda é outra coisa.
- Que és o cara mais sortudo do mundo?
- É tudo verdade, mas é outra coisa. Vai lá linda. O que falo desde que nos conhecemos?
- Que sou a salvação do mundo?
- Exato! Graças a você, ainda tenho esperanças no mundo. E me desse isso quando mais precisei.
- Bobo. Me diz. O que é "sua aula me irrita"?
- É um manifesto.
- Por que? Pra que?
- Por que até hoje estudas, até hoje te quero só pra mim, até hoje tenho que te compartilhar com a sua aula.
- Bobo mesmo. Desde quando juntas as coisas sobre mim assim?
- Muito tempo. Mas pra conseguir fazer tudo o que está aqui hoje demorei um mês e meio. Minha inspiração.
E me rouba um selinho.
Caramba. Me sinto em nuvens. Não reclamo nadinha do rock mais, juro por Deus. Nuvens, Nuvens, Nuvens. Perdida em tudo isso pergunto:
- E agora?
- Como assim?
- Agora que vi o que estás fazendo, fazemos o que?
- Não sei, tens aula amanhã, devias estar dormindo.
- E se amanhã eu não for?
Ele para. Parece que agora eu que o surpreendi.
- Você! Você não ir pra aula? - ele pergunta meio debochado. - Até parece que Você não vai pra aula amanhã! Conta outra dentinho.
E ri.
- Falo sério seu bobo.
Ele para de ri, apenas, sorri.
- É sério mesmo?
- É.
- De verdade?
- Sim.
- Jura juradinho?
- Juro.
Ele para e sorri de novo, só para então dizer:
- Que tal eu te amar como nunca antes e te levar para ver o nascer do sol em uma praia bacana?
- Perfeito!
- Mesmo?
- Mesmo mesmo.
Ele aumenta o sorriso e me beija forte, com intensidade sem igual. Mas pera, lembrei. Lembrei de algo muito importante. Olho para ele e pergunto:
- Mas me fala, estavas chorando?
- Não exatamente - encabulado - Sabes que mesmo que eu queira muito não é bem assim para mim chorar.
- Mas choravas?
- Sim.
Opa! Pera! Isso pode ser ruim. O filho da mãe se arrepende?
- Por que?
- Por que fico impressionado como alguém completamente perfeita como você pode estar comigo. Me emociono. Agradeço a Deus. Ele tem que me amar demais para deixar que eu fique com a salvação do mundo em minhas mãos todos os dias até os fins dos dias.
Dessa vez eu o beijo com força, com intensidade. Ele retribui. Eu me afasto e sussurro:
- Te amo.
- Obrigado.
- Oi?
- Obrigado.
- Pelo que?
- Por me amar.
E isso repercute em minha mente o resto da noite. Obrigado. Obrigado por me amar. Obrigado. Obrigado por me amar. Obrigado. Obrigado por me amar.
Por me amar.
Por me amar.
E nos amamos.

