O menino acorda tonto, zonzo, com gosto de cobre na boca.
E adormece de novo.
A sensação de entrar e sair no mundo instantaneamente lhe da náuseas. Mais uma vez o menino acorda. A cabeça zumbe, uma pressão realmente incômoda aflige a parte de trás da sua cabeça, o que o faz levar a mão à região afetada. Mas o que?!? O toque é úmido e frio. Vermelho. Quando traz a mão para a frente dos olhos novamente só vê a escuridão vermelha. Mas que porra é essa?!? O gosto de cobre na boca é mais intenso.
E adormece de novo.
A terceira vez que acorda é com um tapa na cara. Pá! Forte! Quente! Ardido! Os olhos abrem para um flash de luzes brancas, mas a visão está embaçada demais para conseguir focalizar algo. Apenas distingue uma silhueta a sua frente, de onde certamente o tapa veio.
E adormece de novo.
No silêncio de um sono sem sonhos ele sente mais um tapa, agora dado com os nós dos dedos, atingindo a maçã do rosto e o nariz. O som estalado do tapa enche todo o recinto. Mais alto que qualquer outro som.
O menino solta um arquejo.
Porra! Mas que merda é es..
Em seguida vem o grito:
- Acorda desgraçado!
E outro tapa.
Pá! Bem no lado esquerdo da face. Um tapa forte com a mão aberta estalando no ouvido, queimando a carne, machucando a cartilagem do nariz.
O menino solta um longo arquejo e apaga de novo.
Merda! Que raios é..
O tempo que pareceu uma eternidade durou na verdade apenas quinze segundos.
Duas mãos seguram o rosto do menino e o hálito quente do agressor enche o quarto de cheiros enquanto ele diz:
- Vamos Lucas, acorde! Seu viado de merda! Acorda!
Acorda?!?
As mãos soltam o rosto do menino (Lucas) que cai meio sem graça sobre o colarinho da camiseta empapada em suor, fazendo uma mancha nojenta até o meio da barriga. Seus braços estão arranhados, sua calça rasgada, o olho inchado. Quando leva a mão ao rosto, sente o sangue escorrido e ressecado que saiu pelo nariz quebrado.
Mas que porr..
E então ele se lembra.
Lucas, o menino, acordou para uma quarta-feira normal, sem saber que de normal ele só teria o acordar.
Havia dormido sem camisa, abraçando a moça ao seu lado. Um sono sem sonhos, um sono tranquilo. Um sono digno de quem já estava alto pela cerveja tomada na noite anterior.
A moça era apenas mais uma que pôde ser usada no caminho, ninguém a mais, ninguém melhor.
Ninguém.
Ninguém.
Ele senta na cama, sem reconhecer o lugar em que está, até que finalmente se lembra que não está em casa. Na noite anterior conheceu a moça, a moça que não é ninguém. Depois de algumas cervejas e músicas agitadas ela havia convidado-o para fazer uma visita ao seu apartamento e como sempre, ele aceitou. Ninguém (a moça) levou o rapaz as nuvens por uma noite, sem saber quem era, sem se importar com o que fosse. Simplesmente aproveitou. (Como se isso realmente fosse possível!).
Esfrega os olhos sonolentos. Lança um pequeno sorriso para a janela a sua frente e pensa que: mais uma.. mais uma pra conta.. Os rapazes realmente vão adorar isso!
E uma risadinha. Safada e marota.
Levanta e vai a caça de suas roupas. Para ele o grande trabalho do dia tende a ser isso, procurar seus pertences que podem ter sido perdidos em uma noite. Aonde raios coloquei a carteira?!? Que merda aconteceu com a minha calça?!? E assim por diante. O quarto é relativamente grande, e espaçoso. As suas costas se estende uma cama box com uma ninguém deitada embaixo dos lençóis. Na frente da cama está uma penteadeira branca, com detalhes antigos, levemente gasta, mas está na cara que foi comprada com esse visual, com esse intuito, e que foi cobrado um preço abusivo nela por conta dos detalhes envelhecidos. Vintage, como se diria. A sua frente se encontra um janelão que da para a sacada, que da para a cidade. Para o centro da cidade. Que da para seja lá que merda que tem lá fora. Cortinas brancas molduram a vidraça impecavelmente limpa. Com a claridade do dia parece apenas uma parede branca, com detalhes brancos, tudo branco. Tudo branco. Ao seu lado esquerdo, do lado da cama, está uma mesinha envelhecida, seguindo o padrão da penteadeira, com um belo abajur em cima, ao lado de uma pequena pilha de três livros que não devem estar sendo lidos. Pelo menos os livros não são brancos.
Ele se vira, ficando de frente para a cama. Após a cama, do outro lado do quarto está a porta, branca, trabalhada em detalhes antigos, como era de se esperar. Ao lado da porta está um espelho com uma maçaneta, que é a porta para o closet. Desse outro lado da cama também tem uma mesinha, com um vaso de flores. Flores de verdade, ou pelo menos parecem ser.
Acha a carteira jogada do lado da porta. Essa parte pelo menos estava fácil. Os flash's da noite anterior vão se tornando mais e mais fortes. A cabeça começa a sentir a pressão das cervejadas além da conta. Mas nada que uma ou outra aspirina não resolvam. Assim que eu sair da porra desse apartamento. Cambaleando, sonolento, ele caminha em direção a porta. E, como sempre pode acontecer, consegue chutar o pé da cama com o dedinho do pé.
- Argh! Filha da. - Segura a língua antes que o xingamento possa alcançar os ouvidos da Srta Ninguém que ainda está completamente apagada na cama ao seu lado.
Quando pega a carteira, não resiste e da uma olhada no rosto da Srta Ninguém. Caralho mano! Foi com isso aí que sai da festa ontem? Meu Deus. Mas ontem estava tudo bem. Ontem estava tudo ótimo. Ontem a Srta Ninguém era tão boa quanto qualquer outra. Mas hoje... Pensando bem, acho que deixarei os meninos de fora dessa parte...
Com menos sono ele segue pelo corredor, onde encontra a sua calça ao lado da calça dela, e por pouco não veste a calça errada. Continua seguindo em frente e acha sua camisa jogada por cima do sofá da sala. Ele passa pela casa abotoando a camisa, cansado do incansável branco que está por todos os lados, e sem se importar com os quadros, as almofadas ou qualquer outra coisa que possa ter cor. Apenas segue em direção a porta da frente. Branca, com um olho mágico branco. O gesso que reveste a casa é branco. Tudo branco, tudo perfeitamente branco.
Ele destranca a porta e a abre. O pequeno corredor exibe apenas mais uma porta além da do apartamento que ele está deixando. O corredor é bege, bem leve, graças a Deus. No meio do corredor está a porta do elevador. Bem decorada. Arranjos cobrem os espaços do pequeno corredor. Um quadro de um gato preenche a parede oposta a porta do elevador. Ele caminha tranquilo, aperta o botão do elevador, olha para cima e espera enquanto o display caminha do térreo, passando pelo primeiro andar, pelo segundo, pelo terceiro, onde porra estou quarto, quinto, sexto, inferno sete e para no oitavo andar. As portas se abrem.
Entra no elevador. As portas se fecham. Ele aperta o térreo.
O elevador desce apenas um andar, chega ao sétimo e as portas se abrem. Um jovem de aparência curiosa está parado em frente as portas abertas. Conheço ele. Calça jeans preta, uma camiseta básica branca com uma caveira emoldurada por rosas estampada na frente. A estampa trabalha apenas com cinza e é bastante aberta, mostrando o branco da camiseta. Um vans old school completamente preto está no pé. Um óculos de sol com cara de escritor da década de 90 esconde os olhos, mas deixa aparecer um bigode castanho e um cavanhaque. O cabelo está raspado, pelo menos na número 1. Bem, bem, bem curto. Caramba, eu conheço ele.
O jovem entra no elevador com uma mão no bolso da calça, a outra segura um livro grosso pendendo ao lado do corpo. Arrastando os pés ele se encaminha para o lado direito para quem está entrando, esquerdo para quem está olhando de dentro pra fora. Lucas deixa aquele lado para o novo integrante sem nenhum problema. Da onde que conheço ele? Diabos. Da onde?
Mal as portas se fecham e o jovem fala, sem virar a cabeça, apenas, olhando à porta:
- Bom dia Lucas. - a voz relaxada, sem nenhuma inflexão, sem nenhum interesse.
Levemente assustado, Lucas, o menino, olha para o novo integrante do elevador e responde:
- Bom dia cara.
O jovem vira lentamente, quase arrastando a cabeça na sua direção e pergunta:
- Lembras de mim?
Quem é ele, quem é ele, quem é ele diabos? A cabeça não parece estar querendo fazer a sua parte. Talvez se eu evitasse as cervejas por um tempo, esse problema poderia ser resolvido. Mas ele não lembra de jeito nenhum quem é o rapaz.
- Foi mal brother, mas não, não lembro de você.
- Meu nome é John. - ele fala sem expressar absolutamente nada.
John, John. John?! Eu conhecia um John, faz o que, uns dois anos?
- John amigo da Lisa?
- Isso. Eu mesmo.
- Caramba cara! Faz um tempo hein?
- Faz. Dois anos e três meses se minhas contas estão certas. - ainda sem expressar absolutamente nada.
- É cara, acho que é por aí mesmo. Me fala, que que fazes por aqui? Tipo, moras por aqui?
Ele me olha, parado, com o olhar fixo por um tempo. Que foi cara? Parece que estás me avaliando. O jovem, John, fala calmamente:
- Estou aqui por uma promessa.
Antes que o menino desse conta do que estava acontecendo, o jovem segura o livro com força e joga o braço para frente descrevendo uma curva acendente antes de acertar em cheio o lado direito do rosto do menino Lucas que é jogado contra a parede do elevador. O estouro que o livro faz ao acertar o rosto do menino enche o elevador, cujo display mostra o número 1. Apenas o estacionamento e estarão na recepção do hotel.
Porra.
O menino se desequilibrou, escorregou pela parede até o chão. Sente o sangue na boca onde mordeu a língua com força e cospe uma boa salivada sanguínea para o lado, mas antes de entender qualquer coisa, o jovem John já está sobre ele com seus óculos escuros. Segura a gola da camisa e fala:
- Uma promessa, seu puto!
O jovem ergue o braço o da um soco que acerta em cheio o nariz do menino Lucas. O nariz já era, quebrou. E o menino também já era. Apagou. Nocaute.
John, O Jovem.
Ai caralho! É a primeira coisa que ele pensa. Ai caralho! Qualé! Era para doer nele, filho da mãe! Segura um mão com a outra sentindo todos os nós dos dedos da mão direita. Ninguém me avisou que dar um soco em alguém doía tanto. Filho da Puta!
O menino Lucas está estirado na sua frente quando o elevador chega no térreo. As portas se abrem, ele segura o babaca pelas pernas e o arrasta para fora do elevador, a cabeça dando um leve soco quando alcança o chão, e outro quando passa pelo pequeno desnível que separa o elevador do solo seguro da recepção. E o desgraçado tinha que ser pesado também. Puta que o pariu!
Enquanto eles avançam pelo hall vazio, John não para de resmungar desgraças contra Lucas desacordado. O hall combina com o apartamento da Srta Ninguém, com a exceção de que ao invés de ser branco branco e mais branco, ele é amadeirado, amadeirado e mais amadeirado. Tudo é madeira, tudo é amadeirado. Até o cheiro é amadeirado.
Quando estão alcançando o primeiro par de portas que são responsáveis pelas entradas e saídas dos prédios, Lucas começa a recobrar sua consciência e resmunga algo como:
- aaa que porr... mas aaa..
Mesmo sem conseguir formular nenhuma frase, o jovem John solta as pernas, se vira e acerta um chute com força no estômago do adversário. O som abafado pela camisa e pelas entranhas macias se mistura com o gemido de dor e desconforto do menino, que automaticamente se contorce o cospe sangue no assoalho de madeira do hall de entrada de um prédio antigo e chique. Merda! Pensa John. Eu que não vou limpar essa merda. Vamos logo com isso.
Ele abre a primeira porta, arrasta o corpo por ela e solta as pernas no chão de novo. O menino começa a se remexer buscando uma reação, mas sua cabeça ainda está sentindo o impacto do soco do elevador, e a ânsia que sobe por seu estômago não ajuda em nada. Antes que algo possa acontecer e mudar o cenário, John pressiona seu pescoço contra o assoalho. A falta de ar é sentida no mesmo instante e o menino começa a se debater, procurando um espaço por onde possa tragar o oxigênio. Segura o braço de John com força, mas não há mais nada que possa ser feito. John havia premeditado esse golpe, sabia exatamente como encaixa-lo. Antes que se desse conta, ele já havia posto o Lucas para dormir de novo.
John abre a segunda porta, que da para a rua e arrasta o corpo desacordado pelo assoalho até o lado de fora. O dia está nublado, havia chovido a noite toda e a calçada ainda está molhada. Logo depois da porta está a calçada, e estacionado ao lado da calçada está um Opala preto, dos anos 70, com pneus Cooper Cobra. Seis canecos embaixo do capô, com direitos a Blower e tudo. Ele abre a mala, ou porta-malas, chame como quiser, e volta para arrastar o corpo mais um pouco. Dessa vez a cabeça do Lucas bate ao descer o degrau que separa a entrada do apartamento com a calçada, e bate de novo quando desce da calçada para o paralelepípedo, o que faz com que ele consiga um belo corte na parte de traz da cabeça.
John olha para a mala do carro, pega uma fita adesiva, uma algema, uma corrente e dois cadeados. Olha para o chão e vê que o Lucas está começando a se mexer. Merda! Por que não fica desmaiado? Mas que merda! Rapidamente pega as algemas e prende os braços do menino nas costas, num movimento tão ágil que nem ele imaginava ser capaz. Passa a fita sobre a boca do menino antes mesmo que ele pudesse resmungar qualquer coisa. Quando pega a corrente e passa em volta das pernas os olhos do Lucas abrem e entendem na mesma hora o que está acontecendo. O menino tenta, por puro instinto, dar um chute no seu atacante, mas antes que ele conseguisse descrever o movimento com clareza o jovem já havia se preparado e acertou outro chute na barriga do menino. Porra Lucas! Colabora seu filho da puta! Com a fita na boca o menino não consegue cuspir, então a bile sobe, procura espaço e não há nada que ele possa fazer a não ser engoli-la de volta para o lugar de onde ela veio.
Com uma pressa divina, o jovem prende as pernas do menino, coloca os dois cadeados, segura-o pelas axilas e com muito esforço coloca o menino que está se contorcendo de dor na mala do carro. Pela graça de Deus, essa belezinha tem uma mala grande. Muito grande. Ele coloca primeiro o tronco e empurra as pernas de qualquer maneira. Antes que o menino pense em alguma reação ele fecha a mala e tranca com a chave do carro. É então que ele escuta um arquejo do outro lado da rua.
Uma mãe está embasbacada olhando a cena segurando a sua filha pequena contra sua barriga, num esforço inútil de que a menina não veja nada, mas sua cabeça está virada, olhando avidamente a cena que se desenrola a sua frente.
Porra, que merda! E agora? Sem pensar muito ele se vira para a mãe e fala delicadamente:
- Desculpe o transtorno madame, mas essa é uma medida preventiva para o bem de sua filha. Passar bem. - Porra. Passar bem? Caminha pela lateral do carro, abre a porta do motorista, senta atras do volante e liga o carro. O ronco do motor cresce e toma conta da rua antes que alguém pudesse ouvir qualquer arquejo vindo da mala do carro.
Ao olhar para fora do carro, através dos vidros escuros de insulfilm, ele vê que a mãe e filha ainda estão paradas, boquiabertas, olhando o carro parado do outro lado da rua. Mas que porra!! Por que me olham?? Ah! Claro, eu aprisionei um cara na mala do meu carro. Tudo bem tudo bem. Ele abaixa o vidro do carro, tira os óculos revelando bonitos olhos verdes, olha para mulher e diz:
- No fundo, ainda sou um anjo.
Recoloca os óculos, fecha o vidro, liga o cd player, e alguns segundos depois os alto-falantes começam a cantar Why'd You Only Call Me When You're High? do Arctic Monkeys. Sob esse som e com o ronco do motor ele poem sua máquina em movimento. Pronto! Graças a Deus! Assim fica bem mais fácil! E desfilando uma mancha negra pela cidade ele parte para o próximo ponto do seu plano.
Até que não foi tão difícil ele pensa, enquanto o veículo se desloca a 60 km/h. Até que, tirando a dor da mão foi de boa. Maldita promessa de merda. O carro alcança a via de alta, Arctic Monkeys continuam no cd player e ele segue. Eu bem que te avisei Lucas, eu bem que te avisei, mas você não quis me ouvir. Você não deu a mínima. Então ele acelera o carro até os 140 km/h e mantém assim. Só por que preciso cumprir as coisas não preciso deixar de ser legal.
Lucas.
Ai! Minha! Cabeça! Filho da puta!
Amarrado, algemado, preso e com uma fita na boca a única coisa que sai dele é um:
- Grrrr! Hmmm! Grmm ff Hrmm! - Gutural e cheio de raiva.
Porra! O que to fazendo aqui? Deitado na mala de um carro desconhecido, os olhos abertos gritando por uma brecha e de repente os falantes começam a tocar um maldito rock. Três vezes maldito rock. Porra! Minha cabeça filho da puta! Dói pra caralho! O carro começa a se locomover, os solavancos fazem com que ele quique e sua cabeça descontrolada bate com o corte no chão da mala do carro. Ele solta um grito preso e desesperado de dor e agonia, mas nada sai além de um som preso e sem brilho. Caralho! Caralho caralho caralho! Que porra! Minha cabeça filho da puta!
Ele rola para o lado, tentando proteger a cabeça das batidas. Do nada, o mundo dele se resume em um porta-malas, dores, e o gosto de sangue e cobre em sua boca. O que, filho da puta, eu fiz caralho? O que eu fiz? Por que isso meu deus? E com um mundo cheio de escuridão, ele fecha os olhos e tenta lembrar. Tenta se lembrar de tudo. John. Amigo da Lisa. Amigo da Elisabeth. Sim. Lembro de você filho da puta! O que te fiz?
Dois anos e três meses atrás Lucas ainda namorava Elisabeth, ou Lisa, se você era amigo dela. Tudo ia bem, estavam para fazer um ano de namoro. A Lisa por algum acaso viu esse John um dia que estava passeando no shopping com uma amiga e convidou o três vezes filho da puta para ir no churrasco que iria fazer domingo com os amigos mais chegados. Era pros mais chegados, então por que ele tinha que ir? Mas tudo bem. Ele releva essa parte da história.
Domingo eles se conheceram. Um domingo ensolarado de outono, clima seco, a lenha pegou fogo rápido na churrasqueira e todos os amigos estavam com cervejas na mão. Algumas Heinekens, algumas Buds e algumas Stellas. Um pouco de tudo. Lisa preparava caipirinhas para as meninas, já que ela era boa nisso e fazia questão de preparar. Já estavam tranquilamente em trinta pessoas quando esse viado filho da puta chegou. Lisa apresentou o menino como "meu namorado Lucas" e apresentou o jovem como "meu grande amigo John. O John foi meu melhor amigo a uns 3 anos atras, e sempre mantivemos um pouco de contato. Até já me apaixonei por ele, sabia?" Viado filho da puta. Agora me agride e acha que está tudo certo. O que te fiz seu retardado de merda pra estar na porra do porta malas dessa porra de carro de merda? Viado filho de uma puta gorda!
Mais tarde naquele dia, quando todos os convidados haviam se retirado, inclusive o viado filho da puta do John, ela havia começado a falar dele sem parar. Falou pro Lucas como que haviam se conhecido, como sentiu falta dele, e como ele havia avacalhado com a amizade deles quando conquistou-a e começou a namorar outra. Ficaram dois anos basicamente sem se falar, mas quando se viram de novo automaticamente se tornaram melhores amigos. Nunca mais ficaram muito tempo sem se falar. Até que o menino Lucas começou a namora-la. E foi um bom namoro. Ela era muito gata, convenhamos. John seu filho da puta! O que te fiz?
É óbvio que ele, o menino Lucas, nunca nutriu nada de bom para com esse John. E tirando o churrasco eles se viram apenas mais uma vez, dois meses após o domingo do churrasco, e isso por que a Lisa tinha insistido que a porra do aniversário dela não estaria completo jamais sem a presença do viado filho da puta do John. Mas porra! Minha cabeça! Que que aconteceu nesse aniversário? Ele se esforça pra lembrar. John chegou a determinada altura da festa, comeu alguma coisa, falou algo com a Lisa, sorriu, e foi embora? Porra! Minha cabeça! não me lembro de porra nenhuma!
Então por que seu viado filho de uma puta? Por que?
Lisa.
Tem que ter algo a ver com a Lisa. Ela é o único elo entre nós. Pensa! Pensa!
Lisa.
Com muito esforço, cabeça doendo, alterado, dentro da mala de um carro chacoalhando e Porra! Vai mais devagar porra! ele se concentra para tentar achar alguma coisa. Tem que ter alguma coisa. A Lisa foi uma das namoradas dele, ok. Funcionou por um tempo, todos eram felizes, mas não demorou para que ela começasse a encher a porra do saco dele com picuinhas de merda. "Por que tu ainda fala com essas piranhas. Por que tu não me valoriza. Por que eu não sou ninguém pra você. Por que isso, por que aquilo, por que não sei o que." Porra. Supõem-se que namoros sejam isso né. Afinal, ele sempre levou a vida dele como uma curtição, e nunca foi arrebentado e posto em um porta malas por isso.
O namoro entre eles acabou, como tudo na vida. Lisa ficou muito chateada, muito triste. As amigas falaram que ele era um boiola desprovido de coração e que ela chorou horrores, emagreceu horrores, demorou horrores para se recuperar. Se alguém tinha o direito de me bater, esse alguém é a Lisa, ou alguma outra namorada que tive. Porra! Isso não faz sentido.
O carro acelera e desacelera de tempos em tempos. Ele já não faz mais a menor ideia de onde está. O som continua alto, rolando solto nos falantes e isso não o ajuda a pensar. O enjoo e a dor no estômago tão pouco colaboram com coisa alguma. Não sabe mais a quanto tempo está preso e andando. O desconforto das algemas junto com o carro em movimento começa a traçar uma agonia sem fim nos braços que já está começando a ficar insuportável.
Ele falou que era uma promessa. Porra! Porra caralho cacete de agulha! Uma promessa? Uma promessa pra mim? Uma promessa pra quem? Será que prometeu pra Lisa que me bateria? Não, isso não parece fazer muito sentido. Porra! Cacete! Que promessa? Viado filho da puta do caralho!
O menino mantém sua mente na promessa até perceber que o carro começa a desacelerar. E quando se da conta, o carro já está estacionado e o motor desliga. Graças a Deus!! Vou sair dessa merda de lugar! Alguém vai ter muito o que explicar! Muito!
A Mãe.
- Menino insolente. - Ela resmunga consigo mesma. - Vai ver só. Acha que é assim, passar a noite fora de casa e achar que tudo está bem? A mas não vai se escapar dessa assim tão fácil! Ta pensando o que, que isso aqui é um hotel? Que pode entrar e sair a hora que bem entender? Mas isso não vai ficar por aí não! Mas não mesmo!
Passa outra camisa, dobra, poem na pilha e resmunga:
- Dai tem que limpar lavar, tirar manchas e entregar prontinho sem mais nem menos? Mas não mesmo! Ele que não apareça na minha frente hoje! Já está passando dos limites!
Passa outra camiseta, dobra, poem na pilha, resmunga mais alguma coisa, para e escuta.
Um carro estaciona na rua da frente. Se for esse moleque abusado já vai ouvir umas boas! Solta o ferro com uma boa dose de raiva, limpa o suor da testa no dorso da mão e a mão na lateral da calça.
- Ele ta achando que eu sou escrava da vida é? Mas não sou mesmo! E ele já vai saber disso!
Caminha em direção a porta da frente, nem se da ao trabalho de olhar pelo olho mágico, abre a porta e já começa a disparar:
- Por onde andou moleque? A mãe ta aqui sem dormir, cansada, esperando por um si...
- Bom dia Maria - solta uma voz feminina.
Maria para de falar no meio da frase, abre os olhos e da de cara com ninguém mais ninguém menos que sua amiga e ex-vizinha...
- Carmen! Meu Deus menina, achei que era o Lucas! Venha venha, entre!
- Noite longa foi?
- Ah meu Deus Santo e Louvado Deus! Nem imaginas... Acredita que o Lucas ainda não voltou?
- Ai Senhor Jesus Cristinho! Sério?
- Sim! Mas é melhor que não volte também! - reclama enquanto as duas caminham para dentro de casa com passos apressados em direção a cozinha. Maria reclamando, Carmen acompanhando com cara estática, mas não sem um pequeno divertimento. Mas assustada também, afinal as noites sempre podem ser perigosas.
E a Maria prossegue:
- É muito abuso de um menino só! Quer um café? Ah mas é claro que sim! E ele nem me avisou aonde ia! Vê se pode! Minha nossa Senhora! Deixou o celular em casa esse burro! - Poem o café e a água na cafeteira.
- Deixou o celular em casa? - Carmen pergunta puxando uma cadeira e sentando no lado da mesa com olhos maiores que duas clicas.
- Sim! Todos os jovens do mundo não largam essa porcaria e quando precisamos deles com ela esquecem em casa. Como uma mãe pode dormir em paz assim? - Pega duas canecas, abre a geladeira, pega o leite semi-desnatado, coloca tudo na mesa, abre o armário em busca de uma leiteira de vidro, despeja o leite e coloca no microondas.
- Maria Jesus Antônio José! E não avisou aonde ia?
- Nem! Um! Piu! Nada! - Pega o açúcar, duas colheres de chá e coloca na mesa.
- Nossa Senhora! Eu não pregaria o olho a noite se fosse com o meu menino.
- E achas que eu preguei? Não descansei por um minuto que fosse! E olha que tentei. - O microondas apita, a cafeteira já coou metade da água. Maria pega as canecas e enche três quartos de cada uma com o café recém passado. Coloca as duas canecas na mesa, uma em frente da Carmen e a outra do outro lado da mesa e vai buscar o leite enquanto continua - Meu Senhor Amado! Eu te juro que eu já não sei mais o que fazer. To ficando maluca com isso. E sabes o que a benção do meu marido faz a respeito?
- O que?
- Nada! - Serve o leite nas duas canecas e coloca a leiteira na mesa. - Absolutamente nada! - Se serve do açúcar e passa o açucareiro para sua amiga. - Deita na cama, dorme, acorda e vai trabalhar! Parece até que não é nada nessa casa. Mas sei que ele está sentindo tanto quanto eu essas atitudes do Lucas.
- Ah isso sim pelo menos né.
- Mas tem me irritado.
- Imagino. Quantas vezes por semana ele inventa de aprontar dessas?
- Sexta e sábado já nem conto mais. Ele sai de casa e rezo pra que volte em algum momento e com todos os membros!
- Meu Senhor Amado!
- Mas piorou. Agora é quarta e quinta também.
- Ai Jesus!
- Veja bem, ontem era terça. Aonde que está? Não! Sei! Ninguém deve saber! Aonde que anda dormindo esse rapaz? Aqui é a casa dele!
Maria, a mãe, continua desabafando seus problemas até que escuta outro carro estacionando na rua em frente a casa. Ouve um ronco de motor antigo, não desses carros novos, e apesar de velho parece ser esportivo. O carro também está tocando um rock'n'roll que ela não reconhece, já que é uma música do Diabo, Ardiloso.
O carro desliga. Maria olha para Carmen. Carmen olha para Maria. Maria fala para Carmen:
- Deve ser ele. Deve ser ele em um carro desses amigos do inferno que ele arranjou nessa vida pecaminosa dele.
- Isso! Graças a Deus Jesus Maria José!
- Mas esse amigo também vai ouvir umas boas agora. - elas se levantam da mesa.
- Isso! Isso mesmo. Vai ouvir!
- Ninguém vai levar meu filho pras drogas e achar que eu vou ficar impassível! - elas caminham com passos decididos para a frente da casa.
- Isso!
- Eles que se cuidem! - Abre a porta da frente. - Escuta aqui moleque! O que pensas que estás fazendo e quem é o traste que está com vo...
- Madame? - Interrompe uma voz calma na frente da casa.
O jovem a sua frente tira o óculos escuro que pelo jeito faz questão de usar até em dias nublados e revela lindos olhos verdes.
Logo após se recuperar do susto, Maria olha fundo nesses olhos e fala irritada:
- E quem diabos é você?
O jovem se assusta por um segundo mas responde com muita calma:
- Desculpe se estou incomodando. Sou John, um amigo do seu filho.
- Pois bem. - irritada ainda - E aonde está o meu filho?
- Deve estar na casa de um amigo dele. - O jovem responde com uma certa cara de desconfiança. - Ele só pediu pra que eu viesse aqui buscar uma muda de roupa.
- Uma... uma muda de roupa?
- Uhum.
- Mas o que aconteceu?
(Bati nele e arrastei pra fora de um prédio o que acabou por sujar a roupa toda)
- Acabou sujando a que usava ontem caindo em uma poça de lama. - Afinal, a mãe do Lucas não precisa saber que o jovem havia arrastado o filho dela.
- Jesus! Ta bem. Espere aqui um pouco que já vou buscar.
- Tudo bem senhora. - O jovem se vira e recoloca o óculos escuro. Fica virado para a rua.
As duas senhoras, as duas mães caminham pra dentro de casa já aos sussurros:
- Sabe que apesar da roupa estranha ele me parece um menino bem apessoado. - Começa Carmen.
- Bem apessoado? Só podes estar de brincadeira comigo. Não visse o alargador na orelha? - As duas entram na lavanderia.
- Vi. Mas visse a calma e a cortesia que ele nos tratou?
- Tanto faz! Aquele rock é coisa de satã! - Escolhe uma camiseta do seu filho na pilha de roupas passadas e apressadamente dobra uma calça de sarja sem se importar se está muito amassada por que ele tem que voltar pra essa casa imediatamente!
- És muito preconceituosa Maria. Ele parece um doce!
- Só se for comparado com os demônios. - Caminham de volta para a frente da casa. Maria olha bem para o estranho amigo do Lucas parado na frente da casa, pigarreia chamando a atenção, ele se vira para encará-las, da um sorriso e ela fala:
- Aqui está. Uma camiseta e uma calça. Precisa de mais alguma coisa?
- Não, obrigado madame. Só isso mesmo. - Ele estende as mãos e pega as duas peças de roupa.
- Pois então aí está.
- Uhum.
- Quando ver o Lucas de novo fale que a mãe dele está muito preocupada e que teremos uma boa conversa quando voltar pra casa.
Ele sorri de leve mas logo seu sorriso se transforma em uma máscara aflita. De novo controlado demais ele responde:
- Claro senhora. Agora, se me der licença, eu ainda tenho coisas para resolver hoje.
- Ta bem, ta bem. Como é o seu nome mesmo jovem?
- John. Meu nome é John.
- Ótimo. Não apareça mais aqui. - Aquilo pareceu chocar até mesmo Carmen que intervem:
- Maria!?!
- O que é? - Responde seco. - Ele não me parece uma boa companhia pro Lucas!
Carmen olha para John ainda estático e fala:
- Deves perdoar ela meu jovem. Está abalada demais com a ausência do filho. Só peça pra ele voltar logo pra casa ta bem?
Ele então mais tranquilo responde:
- Claro, está bem.
Mas as duas já estão se encaminhando para dentro da casa, fecham a porta e trancam. Maria olha pela janela até que o jovem volta para o carro, entra no lado do motorista, da a partida e vai embora. Então resmunga mais uma vez:
- Isso mesmo! E não volte mais.
John. E Lisa.
Ok! Até aqui tudo bem.
Guiando o carro pela via de rápida de novo. John consegue dirigir o carro sem pensar em absolutamente nada. Está aí uma vantagem de ser homem. Mulheres não conseguem fazer isso e não entendem quando os homens fazem.
Três horas de viagem. Uma hora em estrada de chão. E daí o tormento começa. Acelera o Opala preto pela estrada aproveitando o vento, o som e a velocidade. Será que é muito desconfortável viajar preso no porta-malas de um carro? Apesar de tudo ele ainda é humano né. Ou depois de um tempo de má conduta ele perde o direito de humanidade?
De vez em quando ele escuta resmungos e tentativas de gritos vindo da mala do carro. Principalmente nas trocas de música, quando faz mais silêncio. Mas o motor do carro também ajuda a encobrir os gemidos. Graças a Deus que a mãe dele não ouviu nada. Já pensou? Ia ser muito difícil explicar por que estou com o filho dela preso na mala do carro e com a cabeça sangrando. Ai Deus! Maldita promessa.
Ainda pensando em nada e com surtos de pensamento sobre o Lucas, ele coloca o álbum "The Devil Put Dinosaurs Here" do Alice in Chains, aumenta o volume e continua. Não rodou vinte quilômetros até ter uma boa ideia para aliviar a consciência desse tormento. Reduz a velocidade, para o carro no acostamento, estica a mão para o banco traseiro pegando a muda de roupa que lhe foi confiada pela senhora mãe do Lucas e sai do carro. Caminha até o porta malas, destranca, abre e da de cara com dois olhos esbugalhados, cheios de raiva e terror. Suspira, joga as roupas no porta malas ignorando os respingos e as manchas de sangue no tapete e fala:
- Tó! Para apoiar a cabeça. Vai ficar mais confortável.
Fecha o porta malas, ignora os resmungos que vem de lá e volta para o volante do carro. Pronto! Agora podemos ir! E ele segue em alta bons cinquenta quilômetros até que pense em algum coisa de novo. E todo o pensamento foi expressado em duas palavras resmungadas:
- Que, merda.
Mais cinquenta quilômetros sem pensar em nada.
- Que meleca de merda.
E então, Lisa. Lisa tolinha.
- Merda.
Lisa.
Recentemente ele havia feito uma visita para ela. Lisa. Participou de toda a recuperação. Viu como ela havia estado mal. Viu tudo o que aconteceu. E quando ela precisou, ele esteve lá. Lisa. Por que se envolver com esse cara?
Se conheceram a muito tempo atrás. Muito tempo mesmo. Quando o jovem era adolescente e a Lisa era apenas uma menina boba. A menina cresceu sim, mas continua boba. Ele se encantou, simplesmente por que ela era de uma transparência sem limites. Acreditava nas coisas boas da vida, acreditava no amor, acreditava nele. Acreditava que tudo o que John fazia era para o bem deles. Mas não foi bem assim que aconteceu. Pela décima terceira vez Lisa, me perdoe.
Exitem algumas coisas que as pessoas custam a perdoar. Na verdade, existem pessoas que custam a se perdoar por algumas coisas. E John jamais se perdoou pelo que fez. Lisa superou. Lisa seguiu em frente. Mas John não. O John não pode. É como se ele tentasse fazer justiça com as próprias mãos. Como se aprisionasse alguém no porta malas de um carro. É um ato de masoquismo, ele sabe, mas é inevitável também. Ele tem que mante-la viva de alguma forma dentro dele. Não terá coragem de quase se envolver de novo e precisa saber a todo momento que se for pra ser, vai ter que ser pra valer, do começo ao fim, sem um pingo de dúvida. Sem um pingo de acho que pode ser que de certo com ela. Ele sabe que só se envolverá se for pra ser pra sempre. E grande parte dessa raiva incontida está nas palavras de Lisa, dizendo pra ele numa noite em que ele foi salvá-la da depressão:
- Sabe John.
- Hmmm.
- Não acredito mais que as pessoas podem ficar juntas no final.
Ela estava encostada em seu peito, vendo um filme, a meia luz, na sala do seu apartamento, um pote de sorvete na mão, um copo de coca no encosto do sofá e me solta uma dessas. Não acredito mais que as pessoas podem ficar juntas no final. Não acredito mais que... Ele olha para ela resmungando um:
- Hmmm. - Ela não se mexe, não se vira, não faz nada. John olha para a televisão novamente e finge que não está escorrendo uma lágrima em seu rosto, descendo, rolando, queimando, por que para ele, a culpa sempre foi e sempre será dele. Afinal, foi ele quem teve a infelicidade de quebrar com o primeiro amor da vida dela. Que era ele.
Na época eram bem mais novos, ele se lembra. Caramba, ela era apenas uma criança. Tinha o que, 15 anos? Mas era tão linda, e tão pura. Prometi fugir com ela. E uma risada sombria toma conta do seu rosto. 15 anos, e eu deveria ter escolhido ela. Deveria sim. Mas eu também era um menino tolo, não pensava muito pra frente. Não pensava na real. Não pensava em nada. Bem tolo. Sua cabeça não quis se apaixonar por uma criança, por mais delicada e preciosa que fosse.
Além disso, estava querendo preencher um vazio em seu coração. Ela não foi seu primeiro amor, ele que era o primeiro amor dela. E todos sabem que primeiro amor é algo que vai pra vida toda, a menos que encontres um maior e melhor. Mas nos dedicamos tanto a eles, aos nossos primeiros amores, e com John não foi diferente. Lisa era uma esperança. A esperança no mundo. Esperança de ter um amor maior, mais bacana, melhor. Mas ela era só uma criança meu Deus. Por mais que ela quisesse, como que eu poderia tira-la de sua vida aos 15 anos? As coisas estavam se encaminhando. Eu tive que tomar uma decisão. Pela décima quarta vez Lisa. Me perdoe.
O que o jovem e tolo fez foi namorar outra pessoa, na tentativa de encobrir ambos os amores que não pode ter. Não deu certo de qualquer forma, e o problema real para a continuação da vida dele nunca foi o término do seu namoro. O problema foi ter te magoado Lisa. Esse sempre foi meu problema desde que deixei você de lado. O problema sempre foi sua idade. Quando tomou a decisão, a tanto tempo atrás, parecem que foram à 10 anos, mas é tão mais recente que isso, ele não havia dado nenhuma explicação, nenhuma justificativa, simplesmente abandonou Lisa com seu coração em frangalhos e tentou seguir a sua vida.
Demorou dois anos para que se vissem de novo. Isso desde o abandono. Dois anos é bastante tempo. Dois anos pode mudar muita coisa. Não que ele não havia pensado nela antes, ou sabe, hoje em dia temos redes sociais, as pessoas podem se ver, se vigiar, se monitorar por lá. Como que falam mesmo? Aé! Eu stalkeei. Outra risada sombria, uma risada sem humor. Mas dois anos depois ele a vê caminhando com uma amiga no shopping. Ela o vê, seus olhares se cruzam, e tudo para. Bem cena de filme, mas eu podia jurar que todas as luzes se apagaram naquele shopping e que um canhão de luz foi direcionado diretamente para ela. Naquele pequeno segundo exponencial da minha vida, ela era a pessoa mais linda que eu já vi! A menina havia crescido. Que burro né? Se eu tivesse enrolado por um tempo poderia ser eu andando do lado dessa maravilha. E assim como o momento veio, ele passou. As luzes se acenderam, as pessoas ao seu lado voltaram a caminhar em velocidade normal e ela sorri. Ela sorri. As luzes se apagam, as pessoas diminuem a marcha, a imagem congela e para por outro segundo exponencial de sua vida. Então as luzes se acendem, sua amiga repara que ela está olhando para o jovem a frente e que não está nem aí pro que é que ela pode estar fofocando. Lisa amplia o sorriso fácil e caminha em sua direção. John, estático, sente seu coração acelerando, as têmporas sendo arrancada pela pressão sanguínea em sua cabeça, as borboletas caçando na sua flora intestinal e por mais que isso não soe bonito, dizer apenas que elas estão voando no estomago não chega nem perto da realidade.
Sorrindo muito, Lisa caminha meio trotando em sua direção exclamando um:
- John!
Ele ainda estático, sem reação alguma enquanto Lisa se aproxima:
- John!
Finalmente o bloqueio mental se desfaz e ele fala baixinho:
- Lisa?
Animada pelo reconhecimento ela se adianta e se lança num abraço apertado em volta de seu pescoço:
- John!
O qual responde:
- Lisa. Lisa! - Agora sorrindo muito ele segura seus ombros e a afasta delicadamente para poder olhar em seus olhos - Lisa, é... é você mesmo?
- Claro que sim seu bobo! - ela responde rindo.
- Meu Deus! Como crescesse! - ele responde rindo.
Ficam assim parados por um bom tempo, se olhando, imaginando, fazendo qualquer coisa em suas cabeças até ouvirem um pigarro. Juntos eles olham para o lado e vêem a amiga da Lisa parado ao lado deles. Rapidamente Lisa retoma sua postura enquanto John sente pelo afastar dela e fala para ele:
- Opa, desculpa. John, essa é minha amiga Patrícia. Paty, esse é John!
John, sabendo que ela não voltará para seus braços tão cedo e sem deixar de reparar na aliança de prata que ela usa na mão direita, se recompõem para dizer:
- É um prazer Patrícia - E estende a mão.
Patrícia toma sua mão sem hesitar, estufa o peito para dizer sorridente um:
- O prazer é meu.
Lisa um tanto enciumada pelo toque se interpõem:
- Então... - Ele a olha, com seus lindos olhos verdes, e ela não pode deixar de se felicitar por ganhar a atenção dele de maneira tão fácil.
- Então... ?!? - Ele pergunta.
- Estamos um pouco apressadas hoje, tendo que resolver alguns problemas, mas, no fim de semana vai ter um churrasco na casa do meu namorado - Ela hesita por um breve momento ao perceber o pequeno choque que passa pelo rosto dele - e és mais do que convidado para se juntar a nós. Irão alguns amigos, pessoas legais, vai ter música, vai ser legal.
- Aé?
- Uhum!
- E precisa levar alguma coisa?
- Não não, só ir mesmo.
Ele sorri. Aí está uma reviravolta que qualquer um pode gostar em sua vida. Quando uma pessoa por quem tens mais que um carinho especial, e que em um surto de burrice jogasse tudo fora, fala para você ir vê-la no fim de semana. Isso sim é ótimo! Todas as esperanças no mundo se reacendem assim.
Feliz com a ideia e já se acostumando com a aliança no dedo alheio, afinal fui eu quem acabei com as chances das coisas darem certo, não foi?, ele se lembra de um pequeno detalhe:
- Ah! Só uma coisa. Ainda tens facebook? Por que nem sonho quem é seu namorado ou aonde ele mora...
- Mas claro claro, te adiciono e te mando o endereço.
Ótimo! ele pensa.
- Ótimo! - Ele fala
- Ótimo! - Ela responde.
Eles sorriem um para o outro e são interrompidos por uma Patrícia que não pode deixar de notar na desenvoltura com que tudo aconteceu:
- Bem, legal. Mas precisamos ir Lisa.
Lisa um pouco encabulada pela reação da amiga se apressa a dizer:
- Sim sim, bom... até domingo então?
Ao qual John responde:
- Claro. Até domingo. - e sorri com muito gosto, prazer e satisfação.
As meninas passam por ele mas não dão mais do que quatro passos quando escutam:
- Lisa! - John as chama.
Elas param, se viram e ouvem um John radiante dizer:
- Muito bom vê-la de novo.
Lisa enrubesce e John gosta de vê-la ganhando cor. Ela então responde:
- Digo o mesmo. Até mais.
John começa a dizer um:
- Até... - Mas as meninas já se viraram de novo e dessa vez partem de vez.
Lisa.
O Opala preto continua seguindo por mais alguns quilômetros. E sua cabeça volta a não pensar em nada, nem no menino que já é um homem feito jogado na mala do carro, nem em Lisa, nem na estrada. Apenas segue. Apenas deixa a música encher a sua cabeça e segue a 140 km/h pela via de rápida em direção ao seu destino.
E ao destino de seu passageiro.
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