Mas o Paulo nunca passou a bola, porque passaria hoje?
Desde os cinco anos de idade eles jogam juntos. Acabaram se conhecendo mais do que qualquer pessoa pode conhecer alguém. Desde que se conheceram, a cinco anos atrás, se tornaram inseparáveis, seja no campo, na escola, no lazer ou nas brigas. Com 10 anos, cada um já tinha um dedo quebrado, perdido dois dentes de leite, sem falar dos incontáveis hematomas e ralados. Não, não foram tudo de brigas, tiveram acidentes de bicicleta, tropeços quando foram correr depois de pregar uma peça, complicações ao pular o muro da casa 13 depois de amarrar o rabo do gato na cerca, essas coisas de garoto. E no futebol também.
Paulo viu o Ramy sozinho e livre pra receber o passe, e era um passe fácil pra se fazer, era gol garantido. Ele veio correndo pelo lado direito do campo, olho para o Ramy, calculou a força do chute, e quando o zagueiro ao seu lado chegou para tirar a bola ele cortou numa jogada rápida por entre as pernas do zagueiro e chutou a bola com a maior força que conseguiu.
E a bola, rasgada em dois lados, viajou.
Com uma velocidade incrível ela se deslocou em direção ao gol, sim, ao gol. Todos no mundo da rua São Jorge pararam para ver a viagem que a bola mais rápida já chutada contra um gol de chinelo fez.
A bola passou pelas mãos inadequadas do goleiro, e mexeu o chinelo do lado esquerdo. Ou melhor, a trave esquerda. E a regra de futebol com chinelos é clara: mexeu o chinelo, é trave. Trave não é gol. Mexer o chinelo, não resulta em gol.
Falhou.
O suspiro de "uuuu" se espalha pelos dois times, pela arquibancada e pelos corações de Ramy e Paulo. Ramy chateado, Paulo sem olhar para Ramy, envergonhado.
É em momentos de dificuldades como esses que se mostra a diferença de caráter entre as pessoas. É fácil ser amigo quando se amigo faz o gol da decisão, quero ver é você fazer como o Ramy, que abraçou o Paulo e disse:
"Amigo, foi um dos chutes mais lindos que você já deu." e sorriu.
"Sai daqui Ramy" disse um Paulo revoltado se desvencilhando de um dos abraços mais sinceros que ele poderia receber.
"Poxa brother. Só falei que foi bom, caramba."
"Tu qué é me lembrar que eu podia ter te passado. Chinelo de lixo." disse um Paulo muito revoltado. Sem motivo pra toda essa revolta, claro.
"Relaxa brother." Ramy disse baixinho.
"Relaxa nada Ramy. A droga do gol tava feito, eu chutei certo, fiz tudo certo. Chinelo de lixo."
"Tem os pênaltis cara. Caramba, da nada." Ramy disse ainda mais baixo.
"Da nada??" gritou Paulo. "Da nada?? A gente não precisava desses pênaltis. Não precisava mesmo."
Paulo se virou e saiu apressado, ainda com a respiração pesada. Se dirigiu até a mangueira mais próxima e bebeu água sem parar pelo próximo minuto inteiro, aproveitando no fim para lavar o rosto e inundar o cabelo. Se existia piolhos ali, morreram afogados.
Ramy não fez nada. Ficou parado em silêncio olhando o melhor amigo se afastar todo revoltado.
"O que aconteceu aqui entre vocês Ramyzinho-inho?" disse uma vozinha baixa, suave e doce de menininha.
Ramy olhou para o lado sobressaltado e meio assustado. Não é sempre que uma voz feminina vem e se auto gera em meio ao nada como se sempre estivesse ali só esperando que algo acontecesse para desaflorar e assustar uma criança inocente, como é o caso do Ramy nesse exato momento.
"Mia! Que susto! Nem ouvi você chegar."
"Ha! Meu irmão que me ensinou essa de andar como gatinho. Acho que ele viu num filme." disse sempre baixinho Mia, irmã de Paulo.
"Seu irmão é muito esperto pra idade que a gente tem, sempre falo isso pra ele." disse um Ramy tão baixo quanto a Mia irmã do Paulo. Quem visse essa conversa de fora poderia jurar juradinho que eles estavam cochichando e tramando algo.
"O que aconteceu? Ele nunca grita com você."
"Eu sei Mia. Eu sei."
"Ele nem ta triste com você né?"
"Acho que não. Acho que ele está triste com ele mesmo." Ramy respondeu mais pra ele do que pra Mia.
"Acho que você também é muito esperto pra idade de vocês" disse Mia com sinceridade.
"Achas?" Ramy estava surpreso.
"Acho." disse uma envergonhada Mia.
"Obrigado Mia. Agora vou la que tenho que fazer um gol de pênalti."
Ramy ia saindo quando foi chamado por uma encabulada Mia.
"Ramy!" ela disse mais alto do que o normal mas mais baixo do que a maioria.
"Ah, fale Mia"
"Boa sorte!"
Ramy fez o gol. Paulo também. Ambos foram tomar chocolate quente na casa do Paulo com Mia sempre quieta e presente ao lado dos dois e um seu Martin muito orgulhoso dos 3 sentados na mesa da cozinha comendo o segundo pacote de bolacha recheada. Crianças comem muito mesmo, ta louco, pensou Martin todo orgulhos e sorrisos.
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affffsss.... esse negócio de comentário é lokoo...
ResponderExcluirBem legal... pena que esses meninos tinham problema no dente... quer dizer, a maioria das crianças já perdeu todos ou quase todos os dentes de leite até os dez anos... hihi...
Muito legal... continue e vai dar um ótimo livro.. =]
bju maninha