terça-feira, 29 de novembro de 2011

c'r cnist'r.. capítulo 1 - 1


   "Olá menino" disse Ramy olhando para o rosto confuso do rapaz sentado na escadaria de mármore branco da Igreja da Graça. O menino em questão, estava usando um terninho preto, gravata borboleta preta, uma calça social preta e sapatinhos pretos engraxados e brilhantes de tanto serem lustrados. Cabia perfeitamente nele, mesmo com apenas 5 anos de idade.
   "Oi" disse baixinho e encabulado o menino sentado na escadaria de mármore branco, levando os olhos diretamente para seus próprios pés, completamente sem graça.
   "Meu nome é Ramy." disse um Ramy todo animado. "Qual é o seu?"
   "Paulo" disse um Paulo em voz baixinha e encabulada sentado na escadaria da Igreja da Graça, sem tirar os olhos dos sapatinhos lustrosos e brilhantes.
   "Quantos anos você tem?"
   "Tenho 5." respondeu Paulo.
   "Nossa que legal, eu também. Legal né? A gente tem a mesma idade."
   E então, pela primeira vez nos últimos minutos, Paulo levanta seu olhar para ver, pela primeira vez, quem está a sua frente. Um garotinho franzino com cabelo ruivo bagunçado, meio curtinho, sardinhas cobrindo o rosto inteiro como se fosse ferrugem, uma camisa do Flamengo, short de jogador e um chinelo Havaianas. O garoto com um claro sorriso no rosto fino, os olhos verdes brilhando de entusiasmo, loucos e ávidos pela resposta tão esperada.
   Paulo abre a boca para responder, fecha, e volta os olhos para seus sapatinhos lustrosos.
   "É." foi tudo o que um decepcionado Paulo respondeu.
   "Sabes que que tem esse monte de carros estacionados nessa igreja aqui hoje? sabes? sabes?"
   "Sei."
   Silêncio.
   Ramy nem entendia qual era o problema desse Paulo engravatadinho. Como que um menino de 5 anos pode estar sentado numa escadaria de mármore branco com uma roupa de gente adulta e sem o menor interesse pela montuera de carros estacionados bem em frente a ele? Como isso é possível?
   "Eee?" ele disse tentando dar uma corda para seu companheiro ir em frente.
   "Eles vieram dar tchau para a minha mãe." respondeu o sempre calmo e tristonho Paulo.
   "Ai que legal. Ela vai viajar é?"
   "Não."
   "Eee, mas, então... como assim?" disse um Ramy agora mais confuso do que nunca.
   "Meu pai me disse que ela foi visitar Deus pra dizer pra Ele como eu sou um menininho querido."
   "Noooossaaaa. Que doido. Como ela fez isso?" disse um Ramy agora mais animado do que nunca.
   "Não sei." respondeu o sempre tristonho Paulo.
   "Como assim?" de novo o confuso Ramy.
   E então, bem baixinho, como se pra não assustar a própria consciência, Paulo responde:
   "É que, ontem ela não acordou de manhãzinha. Meu pai disse que ela tinha ido falar com Deus. Mas ela ainda não voltou, e agora sempre vem gente chorando na minha casa e ficam me abraçando e abraçando meu pai. Isso tudo é muito chato. Eles não sabem que ela pode se distrai na visita dela pra Deus?"
   Silêncio.
   "Ei Paulo querido!" disse um senhor mais velho, com cerca de 30 anos pelas costas de Paulo. Ramy levanta os olhos e da de cara com o rosto de um Paulo mais velho. "Tudo bem aqui filhão?"
   "Tudo pai." disse um Paulo já se levantando. "Esse é meu amigo, o Ramy."
   "Ah, claro" disse um senhor Paulo mais velho todo sorrisos e carinhos já estendendo a mão para um Ramy estupefato com a grande semelhança desses dois parados na sua frente. "Sou o Martin, pai do Paulo. Vocês se conhecem a tempo?"
   "Na verdade não pai," responde Paulo "mas ele é bem legal."
   "Ah que bom. Você mora aqui por perto Ramy?" disse o sempre risonho Seu Martin.
   "Moro sim, duas ruas descendo aqui ó." ele respondeu apontando para a direita.
   Seu Martin, com uma grande ideia em mente, aproveita a oportunidade e pergunta:
   "Que bom, a gente mora aqui na rua em frente, naquela casa azul, Ta vendo?"
   "Aham."
   "Quer ir la em casa amanhã tomar um chocolate quente comigo e com o Paulo? Vocês podem jogar bola depois. O que vocês dois acham?"
   Um Paulo e Ramy se entreolharam, loucos e animados com a perspectiva de uma tarde muito divertida e respondem em uníssono:
   "Sim. Com certeza."
   E os três se desatam a rir inocentemente.
   "Então," começa Ramy "vou para minha casa que minha mãe deve estar me esperando. Diz para a sua que ela tem um filho bem legal. Até amanhã então. Tchau."
   E assim como surgiu, sumiu saltitando pela rua um Ramy todo animado e alegre, assoviando feito uma criança que vai visitar um grande amigo no próximo dia para tomar chocolate quente e jogar bola, deixando atras de si, um estupefato Seu Martin e seu um pouco mais animado filho, Paulo, que olha para o pai e sorrindo pergunta:
   "O pai, a mamis já acordou?"



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