segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

c'r cnist'r.. capítulo 1 - 3

   "Ramy" disse Mia na mesma voz cochichada de sempre.
   "Sim?"
   Era uma terça-feira meio chuvosa, mas sem chuva pela tarde e ambos estavam com o gosto do próximo na boca. Era a primeira vez que beijavam os lábios de alguém. Os longos 15 anos que Ramy esperou por esse momento finalmente mostravam seu grande valor e a doçura que a vida pode dar. E nada nem ninguém tiraria dele esse momento.
   Ninguém, a não ser um seu Martin.



   Paulo corria com sua bicicleta em busca de Mia. Ela disse de manhã que passaria a tarde na casa da amiga, três ruas abaixo, mas Paulo acabava de vir da casa dessa tal amiga, e nada de Mia. Droga de Mia, porque não pode colaborar e fazer o que diz?
   Ele sabia que ela era a única pessoa que realmente poderia dar algum consolo para o Ramy agora. Consolo? O Ramy com certeza precisaria bem mais que isso. Ele ficaria inconsolável assim que soubesse o que acabava de acontecer. Pior, o que estava acontecendo nesse exato momento. Droga de Ramy também, cade esse muleque?
   E ele sabia que o Ramy gostava da Mia, e sabia que a Mia gostava do Ramy, mas nem um nem outro dizia para ele aonde eles se encontravam para conversar. Não tinha nada contra a amizade dos dois, achava até que era bom para eles, mas não gostava de não saber algo que acontecia com o seu melhor amigo. Caramba, eles eram os melhores amigos um do outro desde os 5 anos. Caramba, já faziam 10 anos que andavam juntos. Droga de amizade colorida desses dois! Cade vocês?



   O policial Miguel era o melhor em negociações com lunáticos imprevisíveis.
   Lunáticos. Imprevisíveis.
   Fazia 15 minutos que ele recebera o chamado da central dizendo que um lunático invadira um apartamento 3 ruas acima da rua São Jorge. E olha que eram 15 para as 3 da tarde. 3 pessoas moravam no apartamento. 2 em casa. Quando o vizinho de porta percebeu a gritaria ligou para a polícia e relatou o ocorrido.
   3 assaltantes. Plena luz do dia e metade da tarde. 2 reféns adultos. Lunáticos Imprevisíveis de merda mesmo. O negócio é jogar 15, 3 e 2 no jogo do bicho.



   Depois de uma certa idade, assim, depois dos 30 anos de idade, coisas como ossos e articulações nem querem mais funcionar direito. Seu Martin descobriu isso da pior maneira. Mas ele tinha a vantagem da informação.
   Desde que começou a convidar Ramy para passar tempo na sua casa e principalmente depois que Ramy aprendeu a arte do xadrez, ambos passaram a conversar e conversar mais a cada dia. A confiança aumentou. Os assuntos aumentaram. E no dia anterior Ramy disse a seu Martin que iria beijar uma menina nessa tarde 3 ruas abaixo da São Jorge.
   Informação.
   Esse Ramy era um menino de ouro mesmo. 15 anos e era a primeira vez que beijaria uma menina. A se seu filho fosse assim. Paulo já devia estar enchendo a segunda dezena e não dava a mínima pra nada disso. Ele precisava ter uma conversa com Paulo. Mas não agora. Claro que não agora! Preciso achar o Ramy.



   "Alguma novidade do caso?" perguntou o policial Miguel para o patrulheiro cujo nome não importava que chegou com a primeira viatura.
   "Nada. Eles se recusam a fazer contato" respondeu o patrulheiro todo cerimonioso.
   "Quantos andares são?
   "15."
   "Quantos apartamentos por andar?"
   "São --"
   "Não me diga." Interrompeu Miguel olhando diretamente  nos olhos do patrulheiro. "São 3".
   Agora ficava provado que ele era dono de um poder sobrenatural mesmo. E o patrulheiro apenas arregalou os olhos e assentiu.

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