Eu o vi,
Corria contra o vento como se quisesse aumentar a velocidade em que as gotas deveriam atingir o alvo.
Fazia questão de sentir cada ardência,
Não quis esperança nem anestésico.
E não entendia como ele queria que funcionasse essa estranha receita.
Eu vi,
Deixou a noite escorrer por cima de seus ombros,
Banhando toda a angustia com uma suave, doce e escura solidão,
Lançou tudo ao vento até que o sol deixasse o inevitável como bronze.
Sua tripla fascinação multiplicou-se o máximo de vezes que ele me ensinou a contar.
Não quis mais ver, mas como resistir?
Ele continuava com essa estranha receita mortal de aprisionamento emocional.
Cercou toda a obra de arte com bloqueios psíquicos,
Vestiu sua melhor mascara,
Fez do dia um baile,
Fez da noite seu refúgio,
E de mim? Seu lar.
Fazia questão de todos os dias arrancar as casquinhas que queriam cuidar das feridas,
Saia na noite,
Secava no sol,
Usava a mascara,
Num ciclo mais vicioso que o da vida.
Não sei se isso era viver,
Mas queria entender como que ele queria martirizar algo já destruído, já magoado.
Durou cerca de um ano pra ele terminar a obra.
Ficou linda, exuberante, uma aberração.
Era intocável por todos (até por mim),
Invisível para a maioria,
Densa como a noite, bronzeada como o céu ao amanhecer.
Resplandecia no mais lindo feitiço que já vi.
Estava no lugar mais reservado de todos,
Estava conduzindo-o a loucura,
Mantinha os segredos, como segredos.
E eu vi, mas não entendi como aconteceu a decorrência dos fatos.
Dessa vez eu a vi.
Não cri.
Como seria possível?
Não era nem ao menos provável.
Não era nem algo que ele quis.
Nem sei se ele viu.
Demorou dois dias.
Dois dias. Nem é a metade do que ele me ensinou a contar.
Acho até que ele mesmo não esperava que isso fosse possível.
Depois de se dedicar tanto para tornar-se intocável dentro do seu próprio ser,
Se rendeu.

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